
Acabou de jantar e sente-se satisfeito. Senta-se no sofá para ver uma série e, mesmo sem fome, acaba a petiscar um – ou dois – snacks.
Um novo estudo publicado na revista Appetite revela porque é que isto acontece. Segundo noticia o Real Simple, a pesquisa sugere que os estímulos relacionados com comida funcionam como hábitos, sendo respostas automáticas aprendidas, construídas ao longo da vida, em que a alimentação é associada ao prazer.
“Essas respostas cerebrais habituais podem operar independentemente de nossas decisões conscientes”, revela Thomas Sambrook, professor de psicologia. “Embora possa pensar que está a comer porque está com fome, o cérebro pode simplesmente estar a seguir um caminho já conhecido”.
O que são sinais alimentares?
Estímulos alimentares são sinais que direcionam o nosso foco para a alimentação, ativando os nossos instintos pela busca por comida, realça Timothy Frie, neurocientista nutricional.
Estes podem ser sensoriais (como a visão e o olfato), ambientais (horário do dia e localização), sociais (pessoas com quem está) ou internos (falta de energia, stress, emoções, tédio e memória).
“O cérebro aprende estas associações através do condicionamento associativo”, nota Frie. “Associações repetidas, como comer pipocas durante um filme, vinculam o estímulo a um resultado esperado. Quando o estímulo aparece, o cérebro gera uma previsão: comida, e a recompensa associada ao seu consumo, está a caminho. Essa previsão ativa os circuitos de recompensa e motivação, particularmente as vias dopaminérgicas, e prepara o corpo para comer”.
É nestes momentos que a salivação aumenta e a concentração passa a focar-se na comida. Tal acontece como antecipação à refeição e é impulsionado tanto pela expectativa aprendida, como pelas necessidades energéticas.
O estudo também descobriu que ceder aos estímulos alimentares não tem a ver com autocontrolo. Mesmo pessoas disciplinadas podem ser prejudicadas por respostas neurais automáticas.
“Pessoas neurodivergentes, que sofreram traumas, têm doenças crónicas e vivem stress crónico profundo, provavelmente, apresentarão algum grau de desregulação do apetite e disfunção cognitiva, o que pode dificultar o atendimento das suas necessidades nutricionais e a interpretação dos sinais de fome e saciedade”, disse ainda Frie.
Sinais de fome física versus emocional
Liza Baler, coach de saúde, explica as diferenças entre a fome física e emocional.
Fome física:
– Surge gradualmente em resposta às necessidades do corpo;
– Pode ser saciada. Quando se está satisfeito, não se come mais;
– Pode ser adiado. Mesmo percebendo que está com fome consegue esperar meia hora;
– Pode satisfazer-se com uma grande variedade de alimentos;
– Não coincide nem termina com sentimentos negativos sobre o que ou quanto se comeu.
Fome emocional:
– Aparece de repente como resposta às necessidades da mente/coração;
– Sensação de insaciabilidade. Nunca se sente cheio o suficiente;
– Desejo por gratificação instantânea. Precisa de comer logo;
– Desejo por alimentos específicos ou combinações de alimentos;
– Causa sentimentos de culpa, vergonha ou impotência durante ou após a refeição.
“Comer por razões emocionais é um sinal de que nos dissociamos dos sinais de fome física do nosso corpo”, diz Baker. Em vez disso, comemos porque estamos a sentir uma emoção — geralmente stress — ou porque é um determinado horário do dia, estamos com certas pessoas ou em um determinado lugar, etc.”
Porque é que o cérebro responde a estímulos alimentares mesmo quando já estamos cheios?
Segundo Frie, existem dois tipos de fome: a homeostática e a hedónica. “A fome homeostática ocorre quando o nosso cérebro percebe uma deficiência de energia ou nutrientes, e a fome hedónica ocorre quando procuramos uma recompensa ou estimulação na ausência de necessidade fisiológica de energia ou nutrientes”.
Impulsionada pelos circuitos de prazer e hábito do cérebro, a fome hedónica é um desejo psicológico, e não físico. Ou seja, é a sensação de querer comer, mesmo quando o estômago está cheio e o corpo tem energia.
“A fome hedónica é mediada por regiões cerebrais como a amígdala, o hipocampo e o estriado, que codificam a memória e o valor da recompensa”, sublinha. “Esses sistemas podem sobrepor-se aos sinais de saciedade do hipotálamo”.
Assim, o cérebro aprende a prever uma recompensa sempre que encontra um gatilho alimentar familiar, o que faz com que se procure um snack. Alimentos ricos em gordura ou açúcar aceleram este processo, inundando o cérebro com dopamina, o que torna a conexão aprendida ainda mais poderosa.
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Adriano Guerreiro | 07:01 – 29/06/2026
Fonte: Notícias ao Minuto
