
Pode associar a síndrome mão-pé-boca a crianças, mas a verdade é que se trata de uma infeção que também atinge os adultos. Será que os sintomas são idênticos ou é algo que até pode ser mais grave e com diferentes complicações?
Ao Lifestyle ao Minuto a pediatra Clara Gomes começou por esclarecer a razão pela qual esta síndrome afeta de forma rara pessoas de idade adulta.
“A síndrome mão-pé-boca é rara nos adultos porque a maioria das pessoas já desenvolveu imunidade específica após contacto com os vírus que causam a doença.”
Esclarece ainda a médica que os casos podem não ser mais graves do que os verificados nas crianças, mas é preciso estar atento a uma possível evolução. “Os sintomas tanto podem ser mais leves como atípicos e exuberantes, com lesões mais dolorosas e maior desconforto oral.”
O início do outono é uma altura do ano em que se verifica um aumento de casos “devido a vários fatores que favorecem a disseminação e a sobrevivência do vírus”. Se tiver alguém infetado em casa, seja criança ou adulto, é importante seguir algumas medidas preventivas.
“Como medidas de prevenção temos a lavagem frequente das mãos, sobretudo após troca de fraldas, uso da casa de banho ou contacto com pessoas doentes.”
Clara Gomes esclarece tudo sofre a síndrome mão-pé-boca© Clara Gomes
Como podemos definir a síndrome mão-pé-boca?
A síndrome mão-pé-boca é uma infeção viral comum e contagiosa, que afeta sobretudo crianças até aos cinco anos de idade. É causada, na maioria dos casos, por vírus do grupo enterovírus, como o Coxsackievirus A16 e o Enterovirus 71. É geralmente uma doença leve e autolimitada, ou seja, passa sozinha após alguns dias.
Quais os principais sintomas da síndrome mão-pé-boca?
Os sintomas da síndrome mão-pé-boca variam de acordo com a fase da doença, mas seguem padrão clínico característico. Após um período de incubação de três a sete dias, surgem os primeiros sintomas inespecíficos: febre, mal-estar geral, dor de garganta, irritabilidade e falta de apetite. Nos bebés, é comum haver salivação excessiva e recusa alimentar por dor na boca. Até ao segundo dia de febre, surgem vesículas dolorosas na língua, no interior das bochechas e no palato. Quando rompem, originam úlceras dolorosas que dificultam a alimentação e a hidratação. Quase simultaneamente, aparecem vesículas nas palmas das mãos e plantas dos pés, podendo também afetar a região glútea e genital. As lesões posteriormente formam crostas e desaparecem sem deixar cicatrizes. Em alguns casos, podem surgir gânglios aumentados no pescoço, cansaço e vómitos. A doença é autolimitada, com uma duração de sete a 10 dias, com melhoria progressiva dos sintomas.
É mais rara nos adultos, mas também pode acontecer? Os casos acabam por ser mais graves?
A síndrome mão-pé-boca é rara nos adultos porque a maioria das pessoas já desenvolveu imunidade específica após contacto com os vírus que causam a doença. Quando ocorre infeção nesta idade, é geralmente por subtipos de vírus em que não houve exposição prévia. Nos adultos, a doença não é mais grave do que nas crianças. Os sintomas tanto podem ser mais leves como atípicos e exuberantes, com lesões mais dolorosas e maior desconforto oral.
Mesmo sem manifestações clínicas de doença, as pessoas infetadas continuam a ser portadoras e transmissoras do vírusÉ possível ser assintomática?
A síndrome mão-pé-boca pode não causar sintomas, característica que a torna altamente contagiosa. Mesmo sem manifestações clínicas de doença, as pessoas infetadas continuam a ser portadoras e transmissoras do vírus. Os casos assintomáticos são mais comuns em crianças até aos dois anos de idade, em que os sintomas podem passar despercebidos, e nos adultos que tiveram contacto prévio com o vírus e desenvolveram alguma imunidade.
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Quais as possíveis complicações tanto nos adultos como crianças?
Na maioria dos casos, a síndrome mão-pé-boca é uma doença benigna e resolve-se sozinha. Contudo, podem surgir complicações que variam de acordo com a idade e o tipo de vírus envolvido. Essas complicações são semelhantes em todas as idades, embora menos frequentes nos adultos. As complicações mais comuns são a desidratação, causada pela dor oral intensa e dificuldade em ingerir líquidos, e a infeção secundária das lesões cutâneas. Em casos raros, podem surgir complicações mais graves como meningite, encefalite, miocardite e edema pulmonar. Mesmo assim, o prognóstico da síndrome mão-pé-boca é, na maioria dos casos, excelente. A recuperação tende a ser completa e sem deixar sequelas.
Como é feita a transmissão?
O período de incubação da síndrome mão-pé-boca, ou seja, o tempo entre o contacto com o vírus e o aparecimento dos primeiros sintomas, é de três a sete dias. Apesar de o risco de contágio ser maior nas primeiras semanas de doença, a transmissão pode continuar por várias semanas, mesmo após a melhora clínica. Esta síndrome é altamente contagiosa, sobretudo em ambientes com muitas crianças, como creches e escolas. A forma mais comum de transmissão é a via fecal-oral, em que o vírus é eliminado nas fezes da pessoa infetada durante várias semanas, contaminando superfícies, brinquedos e objetos. A infeção ocorre ao tocar nesses objetos e levar as mãos à boca. Também há transmissão pelo contacto direto com o líquido das vesículas da pele, com a saliva e as secreções respiratórias. A transmissão pelo ar, através das gotículas respiratórias dos espirros e da tosse é possível, mas menos frequente.
Em relação ao diagnóstico, como é que é feito?
Na maioria dos casos, o diagnóstico da síndrome mão-pé-boca é clínico, realizado apenas com base na história clínica e nos sintomas. A realização de exames laboratoriais raramente é necessária, ficando reservada para casos atípicos, complicados ou em surtos, para identificar o vírus específico responsável.
É possível ter a síndrome mais do que uma vez?
Como a síndrome mão-pé-boca pode ser causada por diferentes tipos de enterovírus, como o Coxsackievirus A16, Coxsackievirus A6 e o Enterovirus 71, é possível ter a doença mais do que uma vez. A imunidade adquirida após a infeção protege apenas contra o subtipo de vírus que causou a doença. Por isso, uma criança ou adulto podem ser infetados novamente por outro subtipo, embora o risco diminua com a idade e a imunidade acumulada. A reinfeção é mais frequente nas crianças pequenas, quando o sistema imunitário ainda está em desenvolvimento e o contacto com diferentes vírus é mais comum.
Como é possível tratar?
A síndrome mão-pé-boca é uma infeção viral autolimitada, que se resolve sozinha, por isso o tratamento é apenas para alívio sintomático. O objetivo é controlar a febre e a dor, manter uma boa hidratação e prevenir complicações. Para aliviar a febre e a dor, podem utilizar-se antipiréticos e analgésicos. Como as lesões na boca dificultam a alimentação, recomenda-se a ingestão de líquidos frios, gelados ou alimentos pastosos, evitando comidas ácidas ou muito condimentadas. Quando a dor é intensa, podem aplicar-se pomadas anestésicas, sempre com orientação médica. Manter a hidratação é fundamental. Também é importante manter uma boa higiene, lavar frequentemente as mãos e não coçar ou mexer nas vesículas para evitar infeções secundárias da pele.
Deve-se limpar regularmente superfícies e objetos partilhados como brinquedos, mesas e maçanetas, onde o vírus pode sobreviver por vários diasEm relação à prevenção, o que se pode fazer?
A prevenção da síndrome mão-pé-boca baseia-se em medidas de higiene e isolamento. A forma mais eficaz de evitar a transmissão é quebrar o ciclo de contágio, sabendo que a doença espalha-se por via fecal-oral, contacto direto com secreções e, menos frequentemente, por gotículas respiratórias. Como medidas de prevenção temos a lavagem frequente das mãos, sobretudo após troca de fraldas, uso da casa de banho ou contacto com pessoas doentes. Deve-se limpar regularmente superfícies e objetos partilhados como brinquedos, mesas e maçanetas, onde o vírus pode sobreviver por vários dias. Deve-se ainda evitar o contato próximo com pessoas infetadas, incluindo abraços, beijos e partilha de utensílios. As pessoas doentes devem afastar-se temporariamente de ambientes coletivos (creche, escola, local de trabalho) até que a fase mais contagiosa passe, geralmente quando as vesículas secam. Também é importante alertar os familiares e cuidadores sobre a necessidade de manter sempre medidas de higiene rigorosas devido ao risco de propagação da infeção por pessoas sem sintomas.
Que cuidados deve ter se estiver alguém em casa infetado?
Se alguém em casa tiver a síndrome mão-pé-boca, é importante adotar medidas de higiene e isolamento para reduzir o risco de contágio, uma vez que o vírus é altamente transmissível. Deve-se lavar bem as mãos após contacto com a pessoa doente, limpar e desinfetar todas as superfícies usadas e evitar partilhar utensílios, copos, toalhas ou brinquedos. Sempre que possível, a pessoa infetada deve ficar num espaço separado dentro de casa e o contacto físico próximo, como abraços e beijos, deve ser minimizado até que as vesículas sequem. Roupas, toalhas e roupa de cama devem ser lavadas separadamente.
É algo que pode acontecer em qualquer altura do ano ou existe uma altura de maior incidência?
A síndrome mão-pé-boca pode ocorrer durante todo o ano, mas é mais comum no final da primavera, verão e início do outono devido a vários fatores que favorecem a disseminação e a sobrevivência do vírus.
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Fonte: Notícias ao Minuto
