Síndrome da apneia obstrutiva do sono. O que é, os sinais e os riscos

Já ouviu falar de apneia do sono? E de síndrome da apneia do sono? Acha que é a mesma coisa? “Não exatamente. ‘Apneia do sono’ é um termo que engloba vários tipos de apneias, sendo o mais comum a apneia obstrutiva do sono”, começa por dizer Cláudia Chaves Loureiro, especialista em pneumologia e medicina do […]

Síndrome da apneia obstrutiva do sono. O que é, os sinais e os riscos
Síndrome da apneia obstrutiva do sono. O que é, os sinais e os riscos


Já ouviu falar de apneia do sono? E de síndrome da apneia do sono? Acha que é a mesma coisa? “Não exatamente. ‘Apneia do sono’ é um termo que engloba vários tipos de apneias, sendo o mais comum a apneia obstrutiva do sono”, começa por dizer Cláudia Chaves Loureiro, especialista em pneumologia e medicina do sono.

Em entrevista ao Lifestyle ao Minuto, e no âmbito da rubrica O Médico Explica, a especialista falou sobre esta condição e como acaba por afetar vários órgãos ao mesmo tempo. “Cada pausa respiratória provoca queda de oxigénio que coloca o organismo em ‘estado de alerta’, ativando o sistema nervoso simpático com consequente aumento da pressão arterial.

No mês em que se assinala o Dia Mundial do Sono (13 de março), voltamos a falar sobre esta condição que muitas pessoas acabam por ter sem que lhes tenha sido feito o diagnóstico.

“A maioria dos doentes não sabe que tem apneia porque os sintomas ocorrem durante o sono mas, também, porque as pessoas vão normalizando aquilo que não está bem.”

Cláudia Chaves Loureiro é assistente graduada em pneumologia com competência em medicina do sono
© Universidade de Coimbra  

O que é a síndrome da apneia obstrutiva do sono? 

É uma doença caracterizada por episódios repetidos de obstrução das vias aéreas durante o sono que resultam em pausas na respiração ou em que a respiração fica diminuída. Nesses momentos, o oxigénio que chega aos órgãos e tecidos é inferior ao desejável, para além de também condicionar microdespertares, fragmentando o sono e impedindo um descanso reparador.

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É o mesmo que dizermos apenas apneia do sono? É apenas uma forma mais simples de dizer?

Não exatamente. “Apneia do sono” é um termo que engloba vários tipos de apneias, sendo o mais comum a apneia obstrutiva do sono. Há também a apneia central, que tem uma origem diferente (neurológica/cardíaca). No dia a dia, no discurso comum, usamos o termo simplificado, mas clinicamente não são sinónimos.

Qual é a incidência em Portugal?

Na população com 25 ou mais anos, a prevalência é de 0,9% (cerca de 1 milhão de portugueses, muitos por diagnosticar). A prevalência é superior no sexo masculino e no grupo etário entre os 65 e os 74 anos. Estudos internacionais sugerem que a forma moderada a grave pode afetar 10–20% dos adultos, com maior prevalência nos homens, pessoas com excesso de peso e com o envelhecimento.

Quais são as principais causas da síndrome?

A causa é multifatorial, mas muitas vezes está relacionada com excesso de peso/obesidade; anatomia das vias aéreas (pescoço largo, amígdalas aumentadas, mandíbula pequena); idade (aumenta com o envelhecimento); consumo de álcool e sedativos; posição ao dormir (pode agravar em decúbito dorsal).

Quais são os principais sintomas?

Existem sintomas diurnos e noturnos. Os mais típicos e aos quais devemos estar atentos são ressonar alto e frequente, acordar com sensação de asfixia, pausas respiratórias observadas por terceiros, sono não reparador, sonolência diurna excessiva, cansaço, irritabilidade, dificuldade de concentração, cefaleias matinais.

É possível ter apneia do sono sem ser diagnosticado?

Sim e é muito mais frequente do que o que desejaríamos. A maioria dos doentes não sabe que tem apneia porque os sintomas ocorrem durante o sono mas, também, porque as pessoas vão normalizando aquilo que não está bem. Muitas vezes é o parceiro que identifica primeiro o problema ou terceiros que notam alterações no humor durante o dia.

Como pode ser feito o diagnóstico?

É um processo que combina a avaliação clínica detalhada com exames específicos. Para além da pesquisa de sintomas e de sinais, existem questionários que nos podem indicar maior ou menor probabilidade de doença e, com tudo integrado, orientamos o tipo de exame a realizar. Sem exame, não há diagnóstico certo nem estratificação da gravidade.  As duas modalidades principais  de exames são a Poligrafia do Sono Nível III, o exame mais comum para o diagnóstico inicial que pode ser realizado no domicílio do paciente avaliando sinais cardiorespiratórios, e a polissonografia Nível I ou II, um exame mais completo que avalia para além dos parâmetros cardiorrespiratórios a atividade cerebral (EEG), movimentos oculares e atividade muscular, permitindo identificar as diferentes fases do sono, podendo ser realizado em Laboratório ou no domicilio do paciente. 
A apneia não tratada, para além da má qualidade de vida, está associada sobretudo a doenças cardiovasculares como hipertensão arterialQuais são os primeiros passos a dar depois de receber o diagnóstico?

O primeiro passo será sempre orientação por um médico especialista nesta área do sono (mais frequentemente pneumologistas ou neurologistas). Dependendo da gravidade, o médico vai definir a melhor estratégia terapêutica. Essa pode ir desde a educação sobre a doença, perda de peso, se aplicável, tratamento posicional, dispositivos orais à pressão positiva, vulgarmente conhecida como CPAP. O CPAP é um pequeno aparelho portátil, silencioso, que fica na mesa de cabeceira, e está conectado por um tubo flexível a uma máscara que a pessoa usa durante o sono. O objetivo é manter as vias aéreas abertas para que o oxigénio chegue aos pulmões sem interrupções.

Quais são os riscos que as pessoas correm? Que complicações existem se não for tratada?

A apneia não tratada, para além da má qualidade de vida, está associada sobretudo a doenças cardiovasculares como hipertensão arterial, enfarte, arritmias, AVC; neuroenvelhecimento; doenças metabólicas (como a Diabetes tipo 2 e a obesidade); depressão, não esquecendo maior risco de acidentes por sonolência. 

Como pode esta síndrome aumentar o risco de hipertensão, AVC e problemas cardíacos?

Cada pausa respiratória provoca queda de oxigénio que coloca o organismo em “estado de alerta”, ativando o sistema nervoso simpático com consequente aumento da pressão arterial. Este ciclo repetido durante a noite leva a inflamação, stress oxidativo e disfunção cardiovascular, mecanismos que estão diretamente ligados a hipertensão, AVC e doença cardíaca.

A síndrome da apneia obstrutiva do sono tem cura?

Nas crianças, muitas vezes sim, já que a causa comum é a hipertrofia das amígdalas e adenoides. A sua remoção cirúrgica costuma curar a patologia. Nos adultos, na sua maioria, é uma doença crónica, mas controlável. Dependendo da causa, em situações específicas como a obesidade com a perda de peso significativa ou, em casos selecionados de alterações anatómicas com cirurgias dirigidas, pode haver resolução ou grande melhoria.

É possível prevenir? O que pode ser feito?

Sobretudo nos casos relacionados com a obesidade ou fatores comportamentais, reduzindo fatores de risco. Manter peso saudável, praticar exercício físico, evitar álcool à noite bem como tabaco e medicamentos sedativos, fazer refeições leves ao jantar, dormir em posição lateral, são algumas das medidas a ter para diminuir a possibilidade de ocorrerem estes eventos obstrutivos.

O uso de um aparelho durante a noite é a única forma de tratamento?

De todo. Depende de vários fatores, incluindo a causa e a gravidade. Pode incluir CPAP, mais eficaz nos casos moderados a graves, dispositivos de avanço mandibular, cirurgia (casos selecionados), terapia posicional, perda de peso.

Que problemas pode ter um casal em que um dos elementos tem síndrome da apneia obstrutiva do sono?

Os problemas são de vária ordem: desde os relacionados com a privação de sono do parceiro, pelo ressonar do companheiro e pela ansiedade/medo que as apneias do companheiro podem causar, passando pelo “divórcio de quarto” que, embora resolva a privação de  sono pode diminuir a conexão emocional entre o casal, já limitada por eventual disfunção sexual. A apneia do sono muitas vezes causa disfunção erétil nos homens e diminuição da libido, seja em homens ou mulheres. Por outro lado as alterações de humor que a privação de sono e o sono não reparador causam, nos dois elementos do casal, pode levar a mais discussões, menor tolerância e maior irritabilidade mútua.

Está preparado para a mudança da hora desta noite? Os relógios têm de ser adiantados e na prática irá ficar sem uma hora de sono. Como é que consegue recuperar estes minutos perdidos sem consequências? Veja estas dicas.

Adriano Guerreiro | 08:01 – 28/03/2026



Fonte: Notícias ao Minuto

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