Ser mulher solteira? Continua a existir “um guião cultural muito forte”

Há uns anos, estar solteira com 40 anos tinha um significado diferente de estar solteira com essa idade nos dias de hoje. Independentemente do tema, cada vez mais todos têm algo a dizer sobre a vida alheia, mas este assunto parece ser relativamente mais sensível, especialmente para as mulheres. Numa entrevista ao Lifestyle ao Minuto, […]

Ser mulher solteira? Continua a existir “um guião cultural muito forte”
Ser mulher solteira? Continua a existir “um guião cultural muito forte”

Há uns anos, estar solteira com 40 anos tinha um significado diferente de estar solteira com essa idade nos dias de hoje.

Independentemente do tema, cada vez mais todos têm algo a dizer sobre a vida alheia, mas este assunto parece ser relativamente mais sensível, especialmente para as mulheres.

Numa entrevista ao Lifestyle ao Minuto, a psicóloga Filipa Jardim da Silva, CEO e diretora clínica da Academia Transformar, falou sobre as maiores preocupações das mulheres que vivem nestas circunstâncias.

Apesar de as épocas mudarem, algumas mentalidades predominam. Segundo a especialista, estar solteira atualmente já não significa automaticamente estar à espera de “passar para a fase seguinte”. Para comprovar essa mudança social, Filipa Jardim da Silva faz referência aos Censos 2021 que mostram mais pessoas solteiras do que casadas, o que se traduz em “transformações na forma como se adia ou se redefine o projeto de vida a dois”.

Ainda assim, a psicóloga admite que “as mentalidades não mudam todas à mesma velocidade” por continuar a existir “um guião cultural muito forte, sobretudo sobre as mulheres”.

Leia abaixo a entrevista completa.

A que velocidade é que a sociedade acompanha este tema?

Associa-se um valor pessoal a estar escolhida, acompanhada, casada ou mãe. O resultado é um paradoxo moderno: mais liberdade para escolher, mas ainda muita pressão para cumprir o “calendário” relacional.

A sociedade modernizou os estilos de vida mais depressa do que modernizou as expectativas sobre as mulheres.

É por isso que é tão importante que estas conversas saiam do espaço privado e passem a existir no espaço público, ajudando a questionar guiões antigos que continuam a moldar a forma como as escolhas das mulheres são vistas.

O que pode significar estar solteira? (do ponto de vista de um homem vs o de uma mulher)

É perigoso generalizar, mas há um padrão cultural frequente. Para muitos homens, a solteirice tende a ser interpretada com mais neutralidade ou até como autonomia, liberdade e tempo para carreira ou prazer. Para muitas mulheres, ainda é mais comum ser lida como falha, incompletude ou “algo que não correu bem”. Isto não é psicologia individual, é socialização e expectativas de género.

Do ponto de vista psicológico, a diferença não está na condição de solteiro, está no julgamento externo e no auto julgamento internalizado. A mesma realidade pode ser vivida como escolha e crescimento ou como vergonha e ameaça, consoante a narrativa pessoal e o contexto social.

Por isso, o peso não está no estado civil, está no significado que nos ensinaram a dar-lhe. Quando estas diferenças são discutidas de forma informada e contextualizada, tornam-se mais fáceis de reconhecer e desconstruir, em vez de serem vividas como falhas individuais.

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Estar solteira aos 20 é diferente de estar aos 30 ou 40, 50…? 

É diferente pelo contexto de vida e pela etapa de desenvolvimento. Aos 20, há mais permissividade social para experimentar, mudar, procurar identidade e direcção. Aos 30 e 40, aumentam dois factores: pressão social para “estabilidade” e decisões sobre parentalidade, além de maior carga laboral e menor disponibilidade emocional e logística para conhecer alguém com calma e com curiosidade. Aos 50, muitas vezes surge um contexto distinto, com histórias de divórcio, viuvez, recomeços, filhos adultos e redefinição de intimidade.

Importa sublinhar: nenhuma idade é “tarde” para estar solteira. O que muda é o ruído externo e a urgência aprendida. Um exemplo inspirador de maternidade a solo, como o de mulheres que abraçam a maternidade em idades mais maduras, revela que a idade traz a plenitude ao dia-a-dia e uma nova forma de olhar para as características de um parceiro.

Quanto mais velhos ficamos, mais confortáveis estamos com o nosso estilo de vida e um parceiro terá sempre que ser um complemento a esta vida já estabelecida.

A idade não determina o valor de uma vida amorosa. Determina, isso sim, o tipo de ruído que a sociedade faz à volta dela.

Quais são as principais preocupações de quem está solteira?

Há preocupações emocionais, sociais e práticas. Em termos sociais, o estigma, as perguntas invasivas e a sensação de ser tratada como um projecto falhado ou por acabar. Em termos práticos, há temas muito concretos como rede de apoio, decisões de saúde, divisão de despesas e, em Portugal, a questão económica da habitação e do custo de vida, que penaliza mais quem vive sozinho.

Na União Europeia, os lares de uma só pessoa têm crescido mais rapidamente do que outros tipos de agregados, o que mostra que esta realidade é estrutural e não exceção.

O que pesa mais: A fertilidade ou a racionalidade?

Em termos emocionais, surgem outras preocupações, com destaque para o medo de ficar sozinha (quando tal se configura como negativo) e o receio de não construir família. Uma das preocupações mais sensíveis e silenciosas de muitas mulheres solteiras prende se com a maternidade e com o tempo. Não apenas o tempo cronológico, mas o tempo psicológico, relacional e biológico.

Ao contrário de outras dimensões da vida, a fertilidade feminina continua a ter limites biológicos que não acompanham, na mesma velocidade, as mudanças sociais, profissionais e relacionais. Muitas mulheres vivem uma tensão interna entre o desejo de ser mãe e o desejo de o ser num contexto relacional suficientemente seguro, estável e alinhado com os seus valores. Isto pode gerar um conflito profundo.

Por um lado, não querer adiar indefinidamente um projeto de maternidade. Por outro, não querer avançar por pressão, medo ou solidão, nem tomar decisões que não sejam verdadeiramente conscientes. Surge também a reflexão sobre a maternidade a solo.

Para algumas mulheres, é uma escolha ponderada, legítima e desejada. Para outras, é uma possibilidade que levanta dúvidas emocionais, práticas e éticas, como rede de apoio, carga financeira, impacto na saúde mental, conciliação com o trabalho e ausência de um parceiro parental. O ponto central, do ponto de vista psicológico, é que esta decisão não seja tomada como fuga à ansiedade do tempo ou à pressão externa, mas como uma escolha alinhada, informada e sustentada.

É neste contexto que gosto de falar de ações no campo do poder e da liberdade. Como mencionei no podcast da Wells, “[Não] fica bem falar de…”, a avaliação da reserva ovárica, como a análise da hormona anti mulleriana, pode ser um exemplo disso. Não é uma garantia, nem uma sentença, mas uma fonte de informação. 

Para algumas mulheres, ter acesso a esses dados permite reduzir a incerteza, diminuir a pressão interna e, em certos casos, considerar o congelamento de óvulos como forma de comprar tempo psicológico e da tomada de decisão. Tempo para escolher com mais clareza, menos medo e mais autonomia, independentemente do caminho que venha a ser seguido no futuro.

Importa sublinhar que informação não obriga a decisão, mas a ausência de informação muitas vezes empurra para decisões apressadas ou vividas com culpa. A verdadeira preocupação não é apenas a maternidade em si. É poder escolher sem se trair.

Quando a solteirice deixa de ser vista como falha e passa a ser discutida como uma experiência legítima de vida, abrimos espaço para escolhas mais livres, mais conscientes e menos marcadas pela pressão social

O que nunca se deve dizer a uma mulher solteira?

Nunca se deve dizer nada que a reduza a um estado civil ou que sugira que “há algo de errado” em estar solteira.

Exemplos comuns: quando é que arranjas alguém, estás a ficar esquisita, és demasiado exigente, tens de baixar a fasquia, o problema deve ser teu, coitada.

Também não ajuda comparar com irmãs, amigas ou primas, sobretudo em família. Perguntas ou comentários supostamente inocentes podem ser micro agressões sociais quando repetidas ano após ano.

A regra é simples: evitar perguntas e comentários que pressuponham falha. Se houver intimidade, pode perguntar-se à pessoa como está, de uma forma geral, e o que deseja para a sua vida, sem impor um guião.

E mesmo que porventura possa existir uma partilha em torno do estado civil com alguma tristeza ou lamento, isso não abre espaço a críticas fáceis ou a sugestões “fast food” estilo “vou dar-te 2 dicas infalíveis para arranjares alguém.”

No fundo, devemos tratarmo-nos a todos sem nos reduzir ao nosso estado civil, ao nosso estado profissional ou a outra qualquer circunstância. O que somos enquanto pessoas sobrepõe-se a tudo isso e essa foi uma ideia central defendida no podcast “[Não] fica bem falar de…” no episódio dedicado a este tema.

Reuniões familiares em épocas festivas podem representar um problema/ gatilho para estas pessoas? Em que medida?

Podem, porque o Natal, por exemplo, amplifica comparação e exposição. É uma época com muitas narrativas de casal e família, expectativas de pertença e “balanço do ano”. Para algumas mulheres, um convívio familiar pode funcionar como palco de avaliação, com perguntas repetidas e uma leitura do amor como meta obrigatória. 

Isto não é só desconforto. Pode aumentar ruminação, ansiedade antecipatória, tristeza e sensação de inadequação, sobretudo quando a pessoa já está fragilizada ou vive um luto relacional. O Natal não cria feridas, mas pode acender as que já existem.

Criar espaços onde estas experiências possam ser nomeadas e compreendidas ajuda a reduzir este impacto emocional.

Quais os mecanismos psicológicos que uma mulher pode adotar para deixar de se comparar?

Comparação é mesmo um mecanismo humano, mas pode tornar-se tóxico quando vira medida de valor. Três estratégias úteis e baseadas em evidência clínica são:

Primeiro, ajustar o foco para valores e não para métricas. Em vez de “eu devia estar como ela”, perguntar “o que é importante para mim nesta fase?”.

Segundo, treinar metacognição e regulação emocional. Ou seja, notar o pensamento comparativo sem o seguir como se fosse um facto. Aqui, é fundamental treinarmos a nossa capacidade de autoobservação e identificação de pensamentos, emoções e sensações físicas, como peças de informação e não como problemas ou sentenças.

Terceiro, higiene digital e curadoria do ambiente. A comparação aumenta com consumo passivo de redes sociais e idealizações. A APA (associação americana de psicologia) tem alertado para riscos psicológicos associados ao uso de redes sociais, incluindo pressão social e comparação, sobretudo em contextos vulneráveis. É por isso uma ótima prática sermos mais criteriosos e conscientes do tempo que despendemos online e do tipo de conteúdos que consumimos, para não ficarmos reféns de um algoritmo que nos pode enviesar a visão do mundo e de nós mesmas.

Não é possível eliminar a comparação, mas é necessário ganharmos consciência deste padrão de funcionamento que nos ativa a nossa síndrome do impostor e nos faz sentir permanentemente insuficientes. Precisamos por isso abastecer o nosso sentimento de merecimento, não fazendo mais coisas e alcançado mais objetivos, mas com um autodialogo mais gentil e compassivo.

Porque é que ainda estranhamos que haja tantas mulheres solteiras?

Há razões sociais e estruturais fortes. Maior escolaridade e autonomia económica, expectativas mais elevadas sobre a qualidade relacional, menor tolerância a relações assimétricas e a sobrecarga de trabalho emocional e doméstico, e mais consciência sobre saúde mental e limites. A investigação contemporânea sobre solteirice tem mostrado como o estigma tem vindo a diminuir em certos contextos e como a solteirice pode ser vivida como identidade e escolha, não apenas como “falta”. 

Quando a solteirice deixa de ser vista como falha e passa a ser discutida como uma experiência legítima de vida, abrimos espaço para escolhas mais livres, mais conscientes e menos marcadas pela pressão social. Esse tem sido, aliás, um dos objetivos de projetos que procuram trazer estes temas para o espaço público com profundidade e responsabilidade.

Do ponto de vista psicológico, muitas mulheres estão a escolher paz, coerência e segurança em vez de relação a qualquer custo. Não é recusa do amor. É recusa de um amor que custa demasiado. Diria, que existem mulheres solteiras porque existem mulheres livres. E a liberdade muda o critério, não o desejo.

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Fonte: Notícias ao Minuto

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