
Serão as regras de vestuário estabelecidas por algumas igrejas católicas exageradas? O assunto tem surgido nas redes sociais, sobretudo durante a visita de turistas ao Vaticano, com muitos a revelarem-se surpreendidos pelas exigências que lhes são feitas à entrada relativas à roupa.
Por cá, a Igreja da Nossa Senhora da Conceição, em Queluz, foi notícia por colocar à porta um aviso ilustrado no qual se indicava a indumentária adequada, nomeadamente, roupas sem decotes, sem mangas, saias pelo joelho, calções muito curtos, roupa muito justa ou transparente ou estampados ofensivos.
A propósito do assunto, o Lifestyle ao Minuto esteve à conversa com Vasco Ribeiro, especialista em etiqueta, que explicou o que é esperado dos turistas/visitantes em locais de culto.
Vasco Ribeiro, especialista em etiqueta© Instagram/Vasco Ribeiro
Enquanto especialista em etiqueta, qual é a sua perspetiva? Porque é que a roupa é importante num local de culto?
Um local de culto pode ter uma dimensão histórica, artística e turística, mas não deixa de ser, em primeiro lugar, um espaço sagrado para uma determinada comunidade. Por isso, adaptar o vestuário e o comportamento não significa necessariamente concordar com todas as normas ou professar aquela religião. Significa reconhecer o contexto em que se entra.
A etiqueta assenta precisamente nesta capacidade de adequação. Não se trata de avaliar moralmente o corpo ou a personalidade de alguém, mas de compreender que não nos apresentamos da mesma maneira numa praia, numa cerimónia oficial, num funeral ou num espaço religioso.
No caso do Vaticano, as regras são públicas: os Museus do Vaticano não permitem, entre outros exemplos, peças sem mangas ou muito decotadas, minissaias e calções acima do joelho. A Basílica de São Pedro exige também que os ombros e os joelhos estejam cobertos.
Não se trata de avaliar moralmente a roupa de alguém, mas de compreender que entrar num espaço sagrado exige adequação ao contexto.
Há razões para as pessoas se sentirem ofendidas com este tipo de avisos?
É compreensível que uma pessoa se sinta constrangida, sobretudo quando desconhecia a regra, esperou muito tempo para entrar ou é advertida publicamente e de forma pouco delicada. O sentimento é legítimo.
Contudo, uma regra de acesso não é, por si só, uma ofensa. O problema surge quando é comunicada com agressividade, aplicada de forma desigual ou dirigida apenas a determinados corpos, géneros ou nacionalidades. A dignidade deve existir dos dois lados: o visitante deve respeitar o espaço e quem faz cumprir as regras deve respeitar o visitante.
É importante que a abordagem seja discreta, objetiva e não moralizadora. Deve dizer-se “este espaço tem estas regras” e não “a sua roupa é indecente”.
No caso das igrejas católicas, houve uma evolução dos costumes. Os véus, por exemplo, caíram em desuso.
As normas sociais e os costumes religiosos evoluem. Há práticas que foram muito comuns noutras épocas, como o uso generalizado do véu pelas mulheres nas igrejas católicas, que atualmente já não constituem uma exigência geral.
Isso mostra que a etiqueta não é completamente imóvel. Deve acompanhar a sociedade, mantendo, no entanto, o princípio essencial: reconhecer a natureza do espaço e evitar comportamentos que interfiram com o recolhimento, a oração ou a celebração das outras pessoas.
Portanto, mais importante do que recuperar códigos de vestuário do passado é preservar uma ideia contemporânea de respeito, aplicável de forma equilibrada a homens e mulheres.
Considero inegociável evitar roupa de praia, peças excessivamente transparentes, vestuário que exponha de forma muito acentuada o peito ou a zona das nádegas e mensagens ou imagens deliberadamente ofensivas para a religião ou para os seus símbolos
Quais seriam as regras de vestuário que, na sua opinião, são inegociáveis numa igreja católica?
Considero inegociável evitar roupa de praia, peças excessivamente transparentes, vestuário que exponha de forma muito acentuada o peito ou a zona das nádegas e mensagens ou imagens deliberadamente ofensivas para a religião ou para os seus símbolos.
Em locais mais formais ou com regras próprias, como a Basílica de São Pedro, deve garantir-se que os ombros e os joelhos ficam cobertos.
Deve também retirar-se o boné ou o chapéu comum à entrada de uma igreja católica, sem confundir esta regra de cortesia com coberturas usadas por motivos religiosos, culturais ou de saúde.
Não defendo que seja necessário vestir roupa formal. Uma pessoa pode apresentar-se com roupa descontraída e confortável. O essencial é que seja adequada ao contexto e não pareça que acabou de sair diretamente da praia para uma celebração religiosa.
Os erros mais frequentes são falar em voz alta, atender chamadas, deixar o telemóvel tocar, comer ou beber, permitir que as crianças corram sem acompanhamento, bloquear corredores e aproximar-se de zonas reservadas ao cultoAlém da roupa, quais são os erros de etiqueta mais comuns?
Os erros mais frequentes são falar em voz alta, atender chamadas, deixar o telemóvel tocar, comer ou beber, permitir que as crianças corram sem acompanhamento, bloquear corredores e aproximar-se de zonas reservadas ao culto.
Também é inadequado circular constantemente durante uma celebração, fazer poses demasiado exuberantes junto de altares ou túmulos, interromper momentos de oração para obter fotografias e tratar o espaço apenas como um cenário turístico.
Outro erro é entrar sem observar o que está a acontecer. Pode estar a decorrer uma missa, um funeral, um casamento ou um momento de oração individual. Antes de avançar, devemos perceber se a visita é oportuna e quais as áreas acessíveis.
Também não se devem fotografar pessoas em oração, cerimónias privadas ou crianças sem autorização. A vontade de registar uma visita não deve sobrepor-se à privacidade e à experiência espiritual dos outros
O uso do telemóvel para fotografias pode constituir um problema?
Sim, dependendo do momento e das regras do local. A primeira regra é colocar o telemóvel em silêncio. Depois, deve confirmar-se se é permitido fotografar e se existem restrições ao uso de flash, vídeo ou equipamentos adicionais.
Na Basílica de São Pedro, por exemplo, é permitida fotografia sem flash. No entanto, aquilo que é tecnicamente permitido nem sempre é adequado em todas as circunstâncias. Durante uma celebração, uma oração ou um momento de recolhimento, fotografar pode perturbar e transformar uma experiência religiosa num espetáculo.
Também não se devem fotografar pessoas em oração, cerimónias privadas ou crianças sem autorização. A vontade de registar uma visita não deve sobrepor-se à privacidade e à experiência espiritual dos outros.
O princípio comum é simples: não assumir que todas as religiões funcionam da mesma forma. Deve observar-se, informar-se e seguir as indicações de quem acolhe
Existem princípios comuns de etiqueta em igrejas, mesquitas, sinagogas e templos religiosos?
Existem princípios comuns, embora as práticas concretas sejam diferentes. Em todos estes espaços deve haver respeito pelo silêncio ou pelo tom de voz, cuidado com o vestuário, cumprimento das orientações locais, atenção aos momentos de culto e prudência nas fotografias.
Depois, cada tradição tem regras específicas. Nalguns espaços é necessário retirar os sapatos; noutros, cobrir a cabeça ou, pelo contrário, retirar um chapéu comum. Há ainda locais com áreas de oração distintas ou com limitações de acesso durante determinados rituais.
Por exemplo, a Grande Mesquita Sheikh Zayed informa, antecipadamente, os visitantes de que exige roupa comprida, larga e até aos tornozelos, além de cobertura da cabeça para as mulheres.
O princípio comum é simples: não assumir que todas as religiões funcionam da mesma forma. Deve observar-se, informar-se e seguir as indicações de quem acolhe.
Qual é a melhor forma de comunicar estas regras sem afastar ou ofender os visitantes?
As regras devem ser comunicadas antes da chegada, no site, nos bilhetes, nas plataformas de reserva e nos materiais enviados aos visitantes. À entrada, devem estar apresentadas de forma clara, simples, multilingue e visual.
A linguagem deve ser positiva e contextualizada: “Para preservar o carácter sagrado deste espaço, agradecemos que…” é muito diferente de uma mensagem acusatória ou intimidatória.
É igualmente importante disponibilizar soluções. Um local que recebe milhões de turistas pode ter lenços, capas ou outras peças para empréstimo. Assim, em vez de excluir imediatamente a pessoa, ajuda-a a adaptar-se.
Quando for necessária uma advertência pessoal, deve ser feita com discrição, sem comentários sobre o corpo e, sempre que possível, por alguém preparado para comunicar com visitantes de diferentes culturas.
Um aviso ilustrado à entrada é suficiente ou pode ser interpretado como excessivo?
Um aviso ilustrado não é excessivo. Pelo contrário, pode evitar constrangimentos e ultrapassar barreiras linguísticas. O problema não está na existência do aviso, mas no seu tom, nas imagens escolhidas e na forma como a regra é aplicada.
No entanto, o aviso à entrada não deve ser o primeiro contacto do visitante com a regra. Quem comprou bilhete ou fez uma reserva deve receber essa informação antecipadamente. Descobrir a norma depois de viajar, esperar numa fila e chegar à porta aumenta a sensação de injustiça.
O ideal é combinar informação prévia, sinalética clara, atendimento cortês e uma solução prática para quem não esteja devidamente vestido.
Que três conselhos daria a quem vai visitar um local religioso pela primeira vez?
O primeiro é informar-se antecipadamente sobre as regras específicas do local, incluindo vestuário, horários de culto, fotografias e áreas de acesso reservado.
O segundo é escolher uma roupa adaptável: ter os ombros e os joelhos cobertos e levar um lenço ou uma peça leve permite responder facilmente a diferentes exigências.
O terceiro é observar antes de agir. Reduzir o tom de voz, colocar o telemóvel em silêncio, perceber se está a decorrer uma cerimónia e, perante qualquer dúvida, perguntar com respeito. Num espaço religioso, a discrição é quase sempre a melhor forma de etiqueta.
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Fonte: Notícias ao Minuto
