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Pornô para cegos e surdos: Como são gravados os filmes adultos com ‘narração’ e ‘legenda’

Entenda como é o processo para tornar os conteúdos adultos mais acessíveis. Consultor cego acompanha o processo de adaptação do roteiro à gravação. Gravação de audiodescrição (voltada a cegos) de filme pornô do Sexy Hot
Divulgação
“Eles estão frente a frente. E tocam as mãos. Antônio aproxima o rosto, e Tereza fecha os olhos.”
A narração (voz de mulher) conta um trecho de “Desejo proibido” – e não vem ao caso descrever as interações futuras do casal: o filme é uma das produções do Sexy Hot, canal adulto brasileiro. O conteúdo a oferece recurso de audiodescrição (para cegos) e legendas descritivas (para surdos).
As versões adaptadas de “Desejo proibido” (“o primeiro filme de época” da produtora) e de “Sugar daddy” estão disponíveis desde 2020. A locução que abre este texto, por exemplo, é audiodescrição – trata-se da tradução das imagens em palavras. Já a legenda descritiva sinaliza – em texto – ruídos, sons, música, falas (ou sussurros e gemidos).
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Erra quem pensa que a escassez de diálogos e a abundância de gemidos e onomatopeias facilitam as coisas. E é preciso este cuidado elementar: a narradora não pode se animar demais, a ponto de – pecado talvez mais grave aqui – queimar a largada cometendo spoilers. Palavrão é do jogo. Mas, às vezes, escapa um sinônimo encabulado, tipo “membro”.
Adaptação sem spoiler
A atriz Mia Linz e Oscar Luz, que estrelam o filme pornô de época ‘Desejo proibido’
Divulgação
Diretora da Conecta Acessibilidade, que produz e adapta conteúdos audiovisuais , Joana Peregrino conta que nunca tinha feito audiodescrição ou legenda descritiva na indústria pornô. No catálogo da empresa, estão produções convencionais, como “Chacrinha: O Velho Guerreiro”, “De pernas pro ar 3” e “Minha mãe é uma peça 3”.
“Filme pornô tem menos diálogos que filme de qualquer outro gênero. É muito mais visual. Mas, na audiodescrição, tomamos cuidado para não descrever demais e deixa o som das cenas. A audição do cego é muito mais potente, isso é comprovado pela neurociência”, conta a diretora. “Essa audiodescrição vai introduzindo o conteúdo sem ficar dando spoiler.”
Ela explica que um consultor cego acompanha o processo de adaptação do roteiro à gravação. “E, nesse caso, foi um consultor cego que tinha feito um trabalho de conclusão de curso sobre audiodescrição em filmes eróticos.”
Com relação à legenda descritiva, a precaução foi outra. “Filme pornô tem, digamos, muito mais onomatopeias. Mas não dá para colocar demais, senão fica chato. Surdo tem muita acuidade visual, o que também é comprovado cientificamente, então não ficamos o tempo todo inserindo legenda, para não atrapalhar a visualidade da cena.”
Mas houve algum constrangimento? “Não pode fazer juízo de valor, tem de dizer o que tá acontecendo. Se você tem vergonha de falar P., B., não pode fazer esse tipo de trabalho. Às vezes, alguém ri olhando aquelas cenas. Mas, se você está constrangido ou não, tem de guardar para você.”
“Estamos promovendo acessibilidade. O que fazemos é ‘acessibilizar’ os conteúdos. Não importa se é pornô, documentário, ficção, animação…”
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