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Laura Lavieri e Cacá Machado honram o minimalismo do ‘álbum branco’ de João Gilberto ao estrear show no Rio

Com adesão fundamental do percussionista Igor Caracas, a cantora e o violonista recriam a atmosfera do disco referencial de 1973 sem ‘ser como João’. Cacá Machado e Laura Lavieiri no palco do Blue Note Rio na estreia carioca do show ‘Melhor do que o silêncio’ na noite de 31 de maio
Rodrigo Goffredo
Resenha de show
Título: Melhor do que o silêncio
Artistas: Laura Lavieri e Cacá Machado – com Igor Caracas
Local: Blue Note Rio
Data: 31 de maio de 2024
Cotação: ★ ★ ★ ★ ★
♪ “Não tem como ser João Gilberto”, já avisou Cacá Machado à plateia que compareceu ao Blue Noite Rio na noite de ontem, 31 de maio, para assistir à estreia carioca de Melhor do que o silêncio, show em que Cacá Machado (violão) e Laura Lavieri (voz) abordam o repertório de um dos álbuns mais aclamados de João Gilberto (10 de junho de 1931 – 6 de julho de 2019) com a adesão fundamental do percussionista Igor Caracas.
Não, não tem mesmo como ser João. Mas tem como alcançar em cena uma perfeição possível honrando o minimalismo referencial do disco João Gilberto (1973), conhecido como o álbum branco do criador da bossa nova. E foi isso que o trio fez: dignificou João sem ser João.
Apresentado desde novembro de 2023, como tributo ao cinquentenário do álbum de 1973, o show Melhor do que o silêncio foi idealizado sem concessões. Em cena, o trio apresenta somente as dez músicas do disco neste show sem licenças poéticas e de “poucos decibéis”, como caracterizou Laura Lavieri.
Cantora paulistana revelada como vocalista de Marcelo Jeneci em 2010, Lavieri se elevou em apresentação em que caiu suave, segura e afinada no suingue do samba.
A cadência bonita do gênero dominou o show, estando presente do primeiro número – Eu quero um samba (Haroldo Barbosa e Janet Almeida, 1945), repetido no bis – ao último do show, Eu vim da Bahia (Gilberto Gil, 1965).
Embora a voz de Lavieri tenha sobressaído no canto de músicas como Na Baixa do Sapateiro (Ary Barroso, 1938), samba no qual a artista explorou a região mais aguda da voz, houve real harmonia entre canto, violão e percussão.
Em essência, o trio conseguiu captar a atmosfera do álbum (e da obra) de João Gilberto sem cair na tentação vã de reproduzir o disco com fidelidade absoluta.
Com título que alude ao verso “Melhor do que o silêncio, só João”, escrito por Caetano Veloso para a letra da canção Pra ninguém (1997), o show Melhor do que o silêncio transcorreu sem erros na estreia carioca, e com momentos que beiraram o sublime, caso de Avarandado (Caetano Veloso, 1967), canção ouvida no canto modelar de Lavieri em número de voz e violão.
Tão protagonista quanto a cantora e o violonista Cacá Machado, Igor Caracas brilhou com toque sutil ao longo do show, seja percutindo cesto de vime – cesto transformado em instrumento pelo músico norte-americano de jazz Sonny Carr (1935 – 2011), percussionista do álbum de João Gilberto – seja manuseando folhas secas para tirar sons percussivos delas em tabuleiro armado na mesa em frente ao palco ao longo do samba Águas de março (Antonio Carlos Jobim, 1972), o que gerou aplausos entusiasmados da plateia ao fim do número.
Entre sambas como Falsa baiana (Geraldo Pereira, 1944), Isaura (Herivelto Martins e Roberto Roberti, 1945) e É preciso perdoar (Carlos Coquejo e Alcyvando Luz, 1967), Laura Lavieri levou Valsa (Como são lindos os youguis) (Bebel) (João Gilberto, 1973) nos vocalizes porque o tema não tem letra.
Em Undiú (1973), outro tema autoral apresentado por João no disco, a cantora friccionou dois cocares enquanto Cacá tirou sons do violão que pareceram ecoar o toque de Baden Powell (1937 – 2000), aproximando o show de uma “aventura mântrica”, com Lavieri o caracterizou ao fim da apresentação.
Louve-se também a técnica de som de Rafaela Prestes. Assim como o álbum de João em 1973 foi valorizado pelo trabalho da engenheira de som Wendy Carlos, responsável pela primorosa mixagem do disco, o show de Laura Lavieri, Cacá Machado e Igor Caracas também se nutriu do som perfeito gerado pela engenharia de Rafaela.
Melhor do que foi visto e ouvido ontem no palco do Blue Note Rio, somente o inalcançável João Gilberto. Ou o silêncio.
O percussionista Igor Caracas (à direita) tem presença fundamental no show de Cacá Machado e Laura Lavieri
Rodrigo Goffredo

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