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‘Grande Sertão’ ousa para adaptar clássico da literatura, mas confunde e entedia; g1 já viu

Versão do livro de Guimarães Rosa marca a volta de Guel Arraes, de ‘O Auto da Compadecida’, à direção no cinema depois de 13 anos. Luisa Arraes, filha do cineasta, trabalha com o pai pela 1ª vez. Adaptar livros para a tela grande não é uma tarefa fácil. Um clássico literário, então, é ainda mais difícil. Por isso, “Grande Sertão”, que estreia nos cinemas nesta quinta-feira (6), tinha o grande desafio de apresentar uma das obras mais conhecidas de Guimarães Rosa para um novo público, ao mesmo tempo que precisava agradar os admiradores da obra original. Infelizmente, o filme tem grande chance de não satisfazer nem um lado nem o outro.
O longa tem o mérito de não ter medo de ousar ao imaginar a história em um futuro não muito distante e usar diversas alegorias que conversam muito bem com a sociedade atual. Uma prova de que o trabalho do autor ainda conserva o vigor que foi revelado em sua primeira publicação em 1956.
Só que algumas escolhas do roteiro e, principalmente, da direção, enfraquecem o resultado. Em vez de empolgar, “Grande Sertão” pode causar tédio e até menosprezo do espectador.
Assim como no livro, o filme é contado a partir dos depoimentos de Riobaldo (Caio Blat), que lembra de algumas passagens de sua vida no Grande Sertão, uma enorme comunidade de periferia.
Em especial, o momento no qual uma grande onda de violência assola o local, provocada pelos confrontos entre os policiais liderados por Zé Bebelo (Luis Miranda) e as milícias de Joca Ramiro (Rodrigo Lombardi).
Assista ao trailer do filme “Grande Sertão”
No meio do fogo cruzado, ele reencontra Diadorim (Luisa Arraes), um amigo de infância que faz parte de um dos grupos. Encantado por Diadorim (que esconde sua verdadeira identidade), e sem coragem de confessar seus sentimentos, o jovem decide abandonar a vida de professor para combater a polícia corrupta. Mas a dupla de amigos tem que também lidar com o traiçoeiro Hermógenes (Eduardo Sterblitch), que tem outros planos para os criminosos e para o Grande Sertão.
Película de teatro
Além do livro de Guimarães Rosa, “Grande Sertão” surgiu a partir da peça de teatro de Bia Lessa, encenada pela primeira vez em 2017. Por causa desse espetáculo, o diretor Guel Arraes decidiu fazer a sua versão da história ambientada em um futuro distópico e não muito distante. A ideia não é ruim, já que muitas das questões que livro e peça levantam poderiam funcionar perfeitamente no cinema.
Só que o cineasta parece se esquecer que está realizando uma obra cinematográfica e faz um filme que mais parece um teatro filmado. Com todos os prós e (principalmente) os contras que uma experiência como essa podem proporcionar.
Diadorim (Luisa Arraes) e Joca Ramiro (Rodrigo Lombardi) lideram bando em ‘Grande Sertão’
Helena Barreto/Divulgação
Assim, há cenas que funcionam perfeitamente em um palco, mas que não produzem o mesmo efeito diante de uma câmera. Muitos atores parecem não entender que gritos e expressões afetadas soam ainda mais caricatos na telona e afastam, ao invés de aproximarem, o espectador. Principalmente aquele que tem o primeiro contato com uma obra marcante como “Grande Sertão: Veredas”.
Afastado da direção cinematográfica desde 2011, quando realizou “O Bem-Amado”, Guel Arraes parece ter sentido esse tempo distante, pois seu trabalho não consegue dar o peso necessário para causar impacto. Especialmente nas cenas de confrontos, que são bem irregulares.
Há até uma ou outra sequência em que há alguma criatividade, sobretudo em seus ângulos de câmera. Mas a maioria delas é frágil e sem naturalidade. Para um filme que quer parecer épico, falta um pulso mais firme, que poderia resultar em algo mais marcante.
Mas os problemas do filme não vem só da direção. O roteiro, assinado por Arraes e Jorge Furtado, tenta ser o mais fiel possível ao material original, colocando diversos trechos do livro na boca dos personagens. Mais ou menos como fez, por exemplo, Baz Luhrmann ao adaptar “Romeu e Julieta” em 1996, em que o texto de Shakespeare contrastava com um visual ultra colorido e sua visão moderna e alucinada da clássica história de amor.
Policiais e bandidos se enfrentam em comunidade numa cena de ‘Grande Sertão’
Helena Barreto/Divulgação
Só que, em “Grande Sertão”, essa mistura de passado com futuro quase nunca consegue criar a empatia necessária para o público embarcar nessa experiência. Porque os roteiristas não souberam criar situações que causam identificação entre a nossa realidade e o texto de Guimarães Rosa. O resultado é um trabalho hermético que nunca parece juntar a fala com a imagem de forma memorável.
Pelo menos, o filme teve o mérito de ver o sertão como uma grande comunidade cheia de problemas, cujos habitantes têm diversas dificuldades para sobrevivência. Tanto que as imagens mais marcantes são quando mostram o quão complexo é o sertão, graças às ótimas fotografia (assinada por Gustavo Hadba), cenografia e direção de arte. A alegoria é boa e poderia ser melhor explorada. Mas não teve fôlego suficiente.
Traídos pelo desejo
Infelizmente, os problemas da direção e do roteiro acabam por atingir também o bom elenco. Caio Blat, que já viveu Riobaldo na peça de Bia Lessa, não soube recriar seu personagem para o cinema e atua como se estivesse no teatro. Assim, suas falas raramente parecem naturais. Isso prejudica a evolução de seu personagem na telona, especialmente em relação à sua paixão reprimida por Diadorim.
Diadorim (Luisa Arraes) enfrenta Hermógenes (Eduardo Sterblitch) numa cena de ‘Grande Sertão’
Helena Barreto/Divulgação
Luisa Arraes, que é dirigida por seu pai pela primeira vez na carreira, não consegue convencer como Diadorim, tanto nos trejeitos quanto na forma em que diz o seu texto. Ela nunca transparece ser durona o suficiente quanto a personagem exigia. Também deixa muito evidente o interesse que tem pelo protagonista, quando deveria ser o contrário e intensificar seus conflitos internos. Vittória Seixas, que vive Diadorim na primeira fase da trama, é mais convincente no papel.
Outro que está aquém de seu papel é Eduardo Sterblitch. Hermógenes deveria ser uma pessoa que causasse temor, mas o ator nunca consegue ser intimidador. Ele vai pelo lado da caricatura e mais parece um Gollum (de “O Senhor dos Anéis”) sem carisma.
Ele já provou que é capaz de fazer vilões terríveis, como na série “Os Outros”. Mas em “Grande Sertão”, o ator ficou devendo, assim como Luis Miranda, que só sabe gritar suas falas, sem nenhuma nuance.
Os únicos que entenderam que estão fazendo cinema foram Rodrigo Lombardi e a revelação Luellen de Castro. O ator consegue lidar bem com os contrastes de Joca Ramiro, o líder do grupo criminoso, enquanto a atriz mostra talento como Nhorinhá, que lida com os dramas de Riobaldo e Diadorim de forma luminosa e rouba todas as cenas em que aparece.
“Grande Sertão” perdeu a oportunidade de fazer uma grande obra cinematográfica a partir de uma das obras mais marcantes da literatura brasileira.
O filme tinha uma boa proposta que não se concretizou por completo devido às escolhas questionáveis de seus realizadores. Talvez um dia, seja ambientada no passado ou no futuro, a história ganhe a versão que merece ter.
Riobaldo (Caio Blat) é encurralado por Diadorim (Luisa Arraes) numa cena de ‘Grande Sertão’
Gustavo Hadba/Divulgação

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Produção Eduardo Dj