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Audiolivros: as diferenças entre ler e ouvir um livro de literatura

Especialistas explicam se ouvir em vez de ler um livro pode ou não ser considerado trapaça. Nesta semana, g1 publica uma série de reportagens sobre os audiolivros. A diferença entre ler e ouvir um livro
Bianca Batista e Dhara Assis/Arte/g1
Assim como aconteceu com os podcasts, os audiolivros caminham para ocupar espaço nos smartphones (e nos fones) do público. Dá para acompanhar uma boa história dentro do ônibus, lavando a louça, no carro. Mas ouvir um livro de literatura pode ter o mesmo efeito de assimilação da leitura de um livro físico ou é trapaça?
Especialistas ouvidos pelo g1 explicam que o formato pode atrair mais pessoas para o gênero, mas não podem substituir a leitura.
“Se for adicionar, como forma complementar, como outra maneira de absorver o conteúdo, seja por causa de déficit de atenção, por exemplo, é benéfico”, diz Bernardo Bueno, coordenador do curso de escrita criativa da PUC-RS.
Nesta semana, o g1 publica uma série de reportagens sobre os audiolivros, formato que cresce dentro das editoras e entre o público brasileiro.
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Audiolivros ganham espaço nas editoras
Celso Tavares/g1
Desafio da atenção
Obviamente, ler e ouvir um livro são atividades diferentes, mas as informações obtidas tanto visualmente quanto pela audição convergem, no cérebro, para áreas da linguagem, da compreensão, da mesma forma, conforme explica o neurologista Adalberto Studart, da Associação Brasileira de Neurologia.
Para ele, audiolivros, ou audiobooks, assim como podcasts, não são o problema para a assimilação do conteúdo, mas sim, a forma como vamos ouvi-los.
“Se vamos ouvir sentados em uma poltrona, com atenção plena no áudio, tudo bem, mas, geralmente, não é assim que acontece.”
Segundo ele, é normal que a gente tenha vontade de ouvir a história narrada enquanto faz outras atividades, como dirigir, limpar a casa, andar, correr, ou seja, dividindo o foco com a audição. Studart explica que, ao dividir esse foco, temos mais chances de dispersar e perder detalhes da história.
Mulher usa fone de ouvido
Unsplash
Desta forma, o especialista afirma que a diferença entre ler e ouvir um livro se dá na forma como despendemos a atenção a cada uma das atividades, sendo que é mais fácil conseguirmos concentrar na leitura do que na audição.
“A nossa atenção é muito associada à informação visual. Não à toa, no cérebro, a área visual é maior do que a auditiva”, diz Studart. “Um dos pré-requisitos da leitura é movimentar os olhos para percorrer as linhas. Você fixa o olhar, a sua atenção, no que vai ler. Já na audição, você ouve com atenção, mas seus olhos estão livres para prestar atenção no ambiente. Assim, existe mais chance de se distrair ouvindo um audiolivro do que se distrair lendo na forma física.”
Ele diz que essa necessidade de fazer muitas tarefas ao mesmo tempo é prejudicial, porque cada vez mais, não conseguimos manter o foco em uma atividade. E isso já leva as pessoas à procurar ajuda.
“Cada vez mais, vemos adultos saudáveis, adolescentes, jovens adultos, buscando neurologistas com queixas de memória e problemas de atenção. É um sintoma da modernidade.”
Formato complementar
Segundo Studart, a parte mais interessante dos audiolivros são, de fato, a praticidade que o formato oferece, o que pode atrair novos leitores. “A pessoa está no transporte público, não pode sentar para ler um livro, então, os audiolivros funcionam bem até para que ela não perca o hábito da leitura”, diz o neurologista.
“Mas, manter a leitura escrita é importante para desenvolver o vocabulário, a capacidade de escrita. Ele não é substituto, é auxiliar.”
O professor e coordenador do curso de escrita criativa da PUC-RS, Bernardo Bueno, concorda que os audiolivros devem ser usados como complemento e não substituto. E celebra a popularização do formato para a inclusão das pessoas na literatura.
“A única maneira prejudicial é substituir completamente a leitura”, diz Bueno. “Se for para adicionar, como outra maneira de absorver o conteúdo, por exemplo, por causa de um déficit de atenção ou dislexia, o audiolivro é complementar, e isso é benéfico.”
Além disso, é uma forma de abrir portas para aqueles que não estão tão próximos da literatura. “É muito de hábito: a pessoa começa ouvindo podcast e, de carona, parte para textos mais narrativos.”
E ele vê com bons olhos quando o livro vai além da transposição da escrita para o áudio.
“Alguns tipos de textos se beneficiam muito com a sonoridade, efeitos sonoros, interpretações, ênfases. Há uma imersão maior, o que pode ser muito interessante.”
Bueno diz que existe ainda o questionamento sobre o que seria a literatura, mas, que ela pode aparecer em outros formatos, para além do livro impresso, como os podcasts.
“Muitos escritores querem trazer formatos diferentes para o seu trabalho. Os alunos mais novos, por exemplo, já chegam com ideias diferentes, como as fanfics, a literatura da internet.”

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