Pessoas a identificarem-se como animais? Afinal, o que é ser Therian?

O fenómeno Therian divide opiniões. Há quem veja com estranheza pessoas a vestirem-se e a terem comportamentos idênticos a animais. A tendência tem vindo a espalhar-se por vários países – Portugal incluído – muito devido a vídeos no TikTok. Esta identificação com animais pode ser algo mais para lá das máscaras e dos comportamentos tidos […]

Pessoas a identificarem-se como animais? Afinal, o que é ser Therian?
Pessoas a identificarem-se como animais? Afinal, o que é ser Therian?


O fenómeno Therian divide opiniões. Há quem veja com estranheza pessoas a vestirem-se e a terem comportamentos idênticos a animais. A tendência tem vindo a espalhar-se por vários países – Portugal incluído – muito devido a vídeos no TikTok. Esta identificação com animais pode ser algo mais para lá das máscaras e dos comportamentos tidos como estranhos por parte da sociedade em geral? Afinal, o que é ser Therian e que implicações pode trazer?

“Não significa, necessariamente, acreditar literalmente que se é um animal no plano físico. Na maior parte dos casos, trata-se de uma experiência simbólica e identitária”, começa por explicar a psicóloga clínica Andreia Filipe Vieira em entrevista ao Lifestyle ao Minuto.

Quem não está a par do fenómeno pode olhar de forma mais crítica para este tipo de comportamentos. Ainda assim, podem ter uma explicação. 

“Uma identificação simbólica, por si só, não é necessariamente um problema psicológico. Torna-se relevante do ponto de vista clínico apenas se causar sofrimento significativo, isolamento extremo ou dificuldade em viver a realidade quotidiana.”

Leia abaixo a entrevista completa sobre o fenómeno Therian.

   A psicóloga Andreia Filipe Vieira explicou tudo sobre o fenómeno Therian© Andreia Filipe Vieira 
O que é ser Therian, identificar-se como um animal? O que é que isto significa?

Ser Therian refere-se a pessoas que sentem uma identificação profunda com um determinado animal, ao ponto de o considerarem parte da sua identidade interior. Não significa, necessariamente, acreditar literalmente que se é um animal no plano físico. Na maior parte dos casos trata-se de uma experiência simbólica e identitária: a pessoa reconhece em si características, instintos ou formas de estar no mundo que associa a um animal específico, e utiliza essa imagem para se compreender melhor.

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Para muitas pessoas isto pode ser estranho. Como se pode explicar este fenómeno?

É natural que pareça estranho porque estamos habituados a pensar a identidade humana de forma muito delimitada. No entanto, a psique humana recorre frequentemente a símbolos para se organizar. Os animais, desde sempre presentes em mitos, contos e culturas, representam qualidades psicológicas muito fortes (liberdade, proteção, instinto, força, vulnerabilidade). Em alguns casos, a identificação com um animal torna-se uma forma de dar linguagem a aspetos profundos da experiência emocional.

Não se trata apenas de as pessoas se mascararem. É algo mais profundo do que isso, certo?

Embora existam expressões visuais ou performativas em algumas comunidades, a experiência Therian não se reduz a um disfarce ou a um jogo. Para quem a vive, trata-se sobretudo de uma sensação interna de reconhecimento. É uma forma de narrar a própria identidade e de organizar sentimentos, impulsos e traços de personalidade através de uma metáfora animal.

De que forma é que esta identificação é mostrada? Apenas em fóruns e encontros específicos, ou também no dia a dia?

Depende muito da pessoa. Algumas vivem esta identificação de forma mais privada, partilhando-a apenas em comunidades online ou em encontros específicos onde se sentem compreendidas. Outras integram certos elementos no quotidiano, por exemplo, na forma como falam de si, nas imagens que usam para se representar ou em pequenas expressões simbólicas. No entanto, na maioria das situações continua a ser uma dimensão interna da identidade, não necessariamente visível no dia a dia.

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O essencial é perceber se a pessoa consegue manter um equilíbrio entre o seu mundo interno e a vida práticaPara algumas pessoas, pode ser visto como um problema que precisa de ser acompanhado e tratado?

Nem sempre. Uma identificação simbólica, por si só, não é necessariamente um problema psicológico. Torna-se relevante do ponto de vista clínico apenas se causar sofrimento significativo, isolamento extremo ou dificuldade em viver a realidade quotidiana. Como em muitas outras formas de expressão identitária, o essencial é perceber se a pessoa consegue manter um equilíbrio entre o seu mundo interno e a vida prática.

O que pode explicar alguém ser Therian? Pode ser a necessidade de ligar-se a algo, a um grupo, a uma essência interior?

Pode haver várias motivações. Para algumas pessoas, é uma forma de explorar aspetos da própria personalidade. Para outras, pode estar associada ao sentimento de pertença a uma comunidade que partilha experiências semelhantes. Também pode representar uma tentativa de contacto com algo que se sente como mais autêntico ou instintivo dentro de si.

Poderá também estar ligado à procura de segurança num universo simbólico?

O universo simbólico pode funcionar como um espaço de contenção emocional. Identificar-se com um animal que simboliza proteção, liberdade ou resistência pode oferecer uma sensação de estabilidade psíquica, sobretudo em fases da vida em que a pessoa está a procurar referências internas mais sólidas.

Pode estar também relacionado com uma autodescoberta, para compreender melhor emoções e instintos?

Muitas pessoas descrevem precisamente isso: uma forma de explorar emoções, impulsos e características pessoais através da metáfora animal. O animal torna-se uma espécie de espelho simbólico que ajuda a nomear e compreender aspetos da experiência emocional que, de outra forma, seriam mais difíceis de explicar.

O animal escolhido nesta identificação pode ter algum significado?

Normalmente, tem. O animal costuma refletir qualidades com as quais a pessoa se identifica ou que sente como parte do seu mundo interior, por exemplo, independência, sensibilidade, vigilância ou espírito de grupo. Em termos simbólicos, o animal funciona quase como um arquétipo pessoal.

É algo que ainda gera muitos preconceitos por parte da sociedade? O que pode ser feito para ser mais compreendido?

Sim, existe bastante incompreensão. Qualquer forma de identidade que se afaste das normas habituais tende a gerar estranheza. O primeiro passo para reduzir o estigma é distinguir entre fantasia criativa, expressão identitária e problemas clínicos. Nem tudo o que é diferente é necessariamente patológico. Informação, diálogo e curiosidade genuína ajudam muito a reduzir preconceitos.

Poderá ser necessário um acompanhamento para que as pessoas acabem por compreender melhor esta identificação e como podem integrá-la na sua identidade?

Em alguns casos, pode ser útil. A psicoterapia pode oferecer um espaço seguro para explorar o significado dessa identificação, perceber o que representa emocionalmente e integrá-la de forma saudável na identidade da pessoa. Não com o objetivo de corrigir, mas de compreender.

O que pode ser feito neste sentido? Que tipo de estratégias?

As estratégias passam sobretudo pela reflexão e pela integração. Em contexto terapêutico, pode trabalhar-se a narrativa pessoal, perceber quando surgiu esta identificação, o que simboliza e que necessidades emocionais pode estar a expressar. Também pode ser importante fortalecer outras dimensões da identidade e das relações sociais, para que esta experiência seja apenas uma parte da pessoa e não a totalidade. O objetivo é que a identidade seja vivida com liberdade, mas também com equilíbrio psicológico e ligação ao mundo real.

Também conhecida por ser a hormona da felicidade, a dopamina é o neurotransmissor responsável pelas sensações positivas, associadas tanto a momentos de prazer como de recompensa. Mas como poderá reagir o corpo e o cérebro se cortar alguns estímulos?

Inês Morais Monteiro | 10:06 – 05/03/2026





Fonte: Notícias ao Minuto

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