
“Se a dor no peito tivesse este nível de prevalência, estaríamos com certeza a falar de uma emergência nacional. Mas como o tema é o intestino, não é bonito, calamos e/ou desvalorizamos os sintomas. Pensamos para nós próprios que ‘deve ser normal’, ‘se calhar é stress’, foi ‘algo que comemos’… E é assim que o desconforto intestinal afeta quase 3 milhões de portugueses. Quase em silêncio.
Um estudo recente do Projeto Saúdes sobre saúde intestinal em Portugal concluiu que 45% da população entre os 18 e os 65 anos tem sintomas como prisão de ventre, diarreia, cólicas, inchaço ou gases. Mais marcante ainda: 75% não tem diagnóstico médico. No total da população, 34% carrega um problema persistente sem saber ao certo ‘o que tem’. Estes números obrigam-nos a mudar de escala: não estamos a falar de casos isolados, mas de uma espécie de iceberg – há uma pequena parte que vemos (os casos diagnosticados) e uma massa submersa, gigantesca e invisível, feita de anos de habituação ao mal‑estar, tentativas e recuos, vergonha de falar sobre o tema e um quotidiano ajustado ao desconforto.
© Maria do Carmo Silveira
O impacto não fica só no intestino. Para muitas pessoas, ao desconforto associam-se outros problemas: vários sintomas ao mesmo tempo e com uma frequência que se repete semana após semana. E isso acaba por influenciar tudo – a forma como se come, o humor, a capacidade de concentração e a qualidade do sono. Uma larga maioria admite, ainda, que, quando o mal-estar se intensifica, sente que perde o controlo do corpo e do estado emocional. O intestino – ou segundo cérebro – condiciona boa parte do que somos e do que vivemos.
Vários são os “porquês” que se impõem: por que é que tanta gente não tem um diagnóstico? Por que normalizamos sinais de alarme? Porque falta literacia sobre o tema – a esmagadora maioria das pessoas não sabe bem o que é a microbiota e metade desconhece o eixo intestino-cérebro. Porque há quadros que não aparecem nos exames de rotina. Acima de tudo, porque é que os próprios médicos, nas consultas de rotina, raramente nos perguntam pelo tema?
Há demasiado sofrimento a ser vivido em silêncio e com pouca orientação. Urge, por isso, falar sobre isto como um tema, que é, de saúde pública. O iceberg só deixa de afundar vidas quando passamos a vê‑lo. Vamos falar sobre isto?”
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Fonte: Notícias ao Minuto
