
“Durante estas semanas, milhões de pessoas acompanham o Campeonato do Mundo. Discutem táticas, analisam jogadores, criticam treinadores e tentam prever quem irá levantar o troféu, mas talvez aquilo que torna esta competição tão fascinante tenha pouco a ver com futebol. Na verdade, é provavelmente o maior laboratório de comportamento humano do planeta.
Em nenhum outro contexto conseguimos observar, em tempo real, seres humanos extraordinários colocados perante níveis extremos de pressão, expectativa, medo, responsabilidade e exposição pública. E, curiosamente, aquilo que mais nos surpreende acontece precisamente quando o talento deixa de ser suficiente.
Todos os Mundiais produzem os mesmos mistérios. Equipas teoricamente inferiores eliminam favoritos. Jogadores considerados génios desaparecem nos momentos decisivos. Outros, aparentemente secundários, tornam-se protagonistas. Um penálti falhado transforma-se numa tragédia nacional. Um golo improvável muda a história de um país.
E todos nós fazemos a mesma pergunta: como é que foi possível? A resposta, porém, talvez seja mais profunda do que imaginamos porque o verdadeiro Campeonato do Mundo nunca foi um campeonato de talento, sempre foi um campeonato de acesso ao talento. A diferença pode parecer subtil, mas muda tudo.
© Adelino Cunha
Ninguém chega a um Campeonato do Mundo sem saber jogar futebol. Quando um jogador se aproxima da marca dos onze metros, aos noventa minutos, não está em causa a sua capacidade técnica. Essa discussão já terminou há muitos anos. A verdadeira questão é outra: conseguirá ele ter acesso àquilo que sabe fazer quando tudo está em jogo? Acredito esta seja uma das grandes lições que o desporto de alta competição nos oferece e que, paradoxalmente, continuamos a ignorar nas nossas vidas.
Vivemos obcecados com o potencial. Perguntamos constantemente se uma pessoa é inteligente, talentosa, competente ou criativa. Penso que talvez a pergunta mais importante seja outra: em que medida essa pessoa consegue aceder às suas capacidades quando a pressão aumenta, quando o medo aparece ou quando as circunstâncias deixam de ser favoráveis?
O potencial é apenas uma possibilidade. O desempenho é a capacidade de transformar essa possibilidade em realidade. E entre uma coisa e outra existe um território invisível que os atletas de elite aprenderam a levar muito a sério. É por isso que hoje ninguém estranha que os melhores futebolistas do mundo trabalhem com psicólogos, especialistas em performance, treinadores mentais ou técnicas de visualização. Já ninguém acredita seriamente que a confiança seja um dom ou que a serenidade apareça por acaso.
Os campeões perceberam algo que a maioria das pessoas ainda resiste a aceitar. O talento é relativamente constante. O estado interno é profundamente variável e, em última análise, são os estados internos que determinam a qualidade das decisões, das ações e dos resultados.
A mesma pessoa pode ser brilhante numa circunstância e medíocre noutra. Pode ter um desempenho extraordinário num dia e bloquear completamente no seguinte. Não porque tenha perdido inteligência durante a noite, mas porque perdeu acesso àquilo que possui. E isso explica porque existe tanta gente talentosa a viver muito abaixo das suas capacidades.
Não lhes falta conhecimento, não lhes faltam oportunidades, não lhes falta potencial. Falta-lhes, muitas vezes, aquilo que os atletas treinam diariamente: a capacidade de continuar a funcionar bem quando tudo parece funcionar mal e aqui reside um dos maiores mal-entendidos do nosso tempo. Passamos décadas a aprender a fazer coisas, mas quase nenhuma a aprender a funcionar.
Aprendemos matemática, línguas, tecnologia e finanças. Aprendemos a conduzir um automóvel, a operar máquinas sofisticadas e até a utilizar inteligência artificial, mas ninguém nos ensina a lidar com a incerteza, ninguém nos ensina a recuperar depois do fracasso, ninguém nos ensina a gerir o diálogo interno, ninguém nos ensina a permanecer lúcidos quando o medo tenta assumir o controlo.
É como se tivéssemos passado séculos a aperfeiçoar as ferramentas e continuássemos a ignorar aquele que as utiliza. E este século XXI apresenta-nos, precisamente, um paradoxo extraordinário. Nunca tivemos tanto conhecimento, nunca tivemos tanta tecnologia, nunca tivemos tantos recursos, e, no entanto, continuamos a assistir a pessoas brilhantes a serem derrotadas não pelos adversários, mas por elas próprias.
Gostamos da ideia do génio. A história da humanidade sempre foi construída em torno do mito do talento. Acreditamos em dons naturais. Sentimo-nos confortáveis a pensar que algumas pessoas nasceram destinadas ao sucesso, mas o Campeonato do Mundo lembra-nos, de quatro em quatro anos, uma verdade menos romântica e talvez mais inspiradora: a excelência não é aquilo que conseguimos fazer nos nossos melhores dias, é aquilo que conseguimos repetir nos dias mais difíceis.
É por isso que admiramos Cristiano Ronaldo, Novak Djokovic ou Michael Phelps. Não porque sejam perfeitos, mas porque aprenderam a recuperar, aprenderam a falhar, aprenderam a continuar, em termos simples, tornaram-se anti frágeis. Enquanto algo frágil quebra perante a pressão e algo robusto apenas resiste, algo anti frágil cresce através da adversidade. Acredito que essa seja a competência mais importante do futuro.
O mundo não se tornará mais previsível, pelo contrário, as mudanças serão mais rápidas, a informação será mais abundante, a inteligência artificial democratizará o conhecimento, mas continuará a existir uma diferença fundamental entre saber e conseguir fazer e essa diferença será cada vez mais humana.
No fundo, aquilo que verdadeiramente admiramos quando vemos um jogo decisivo não é o talento dos jogadores. O que nos fascina é a sua capacidade de permanecerem de pé quando tudo está em jogo.
Todos nós temos os nossos próprios campeonatos do mundo. Há quem os jogue numa sala de operações, há quem os jogue a educar filhos, há quem os jogue depois de uma perda, há quem os jogue quando precisa de recomeçar aos cinquenta anos, há quem os jogue em silêncio, sem estádios, sem câmaras e sem aplausos.
E talvez seja por isso que o futebol nos emociona tanto porque, no fundo, reconhecemo-nos naqueles momentos. Não porque sonhemos marcar um golo numa final, mas porque todos desejamos ter acesso ao melhor de nós próprios quando a vida nos coloca perante os nossos próprios onze metros.
A pergunta mais importante que este Campeonato do Mundo nos deixa é esta: se os melhores do mundo dedicam milhares de horas a treinar aquilo que ninguém vê, porque continuamos a acreditar que os resultados mais importantes da nossa vida dependem apenas daquilo que todos conseguem ver?”
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Fonte: Notícias ao Minuto
