IA não é a solução para todos os problemas, adverte Virginia Dignum

“Estão-nos a vender, e estou-me a referir especialmente às empresas de ‘big tech’, (…) uma narrativa que diz que a IA vai fazer tudo e vai resolver todos os nossos problemas e que é só deixarmos eles fazerem o que quiserem que vão conseguir resolver tudo e mais alguma coisa” com a inteligência artificial, diz […]

IA não é a solução para todos os problemas, adverte Virginia Dignum
IA não é a solução para todos os problemas, adverte Virginia Dignum



“Estão-nos a vender, e estou-me a referir especialmente às empresas de ‘big tech’, (…) uma narrativa que diz que a IA vai fazer tudo e vai resolver todos os nossos problemas e que é só deixarmos eles fazerem o que quiserem que vão conseguir resolver tudo e mais alguma coisa” com a inteligência artificial, diz a diretora do Laboratório de Políticas de IA [director AI Policy Lab] da Universidade de Umeå, Suécia.

“O que é verdade é que, primeiro, a IA não é a solução para todos os nossos problemas, segundo, não há uma solução única para tudo e mais alguma coisa, é preciso abordagens diferentes e a capacidade de discernimento para ver o que é que a IA pode fazer e não pode fazer, e também o que é que a IA deve fazer e não deve fazer, são capacidades que não são técnicas em si, mas são muito mais capacidades políticas e capacidades morais”, argumenta a académica, que lançou recentemente o livro The AI Paradox [O paradoxo da IA].

Essas capacidades, salienta, “não vão ser substituídas por uma decisão ou uma computação feita por um sistema de IA e vão ter que continuar a ser, não só por dever, mas também por finalidade, capacidades humanas, não são capacidades das máquinas”.

Questionada sobre qual o maior paradoxo de IA, Virginia Dignum considera que são os humanos.

“O maior paradoxo da IA penso que somos nós”, ou seja, “quanto mais desenvolvemos a inteligência artificial (…) com capacidades cada vez maiores, o paradoxo é que cada vez precisamos da nossa capacidade de conhecimento e de discernimento para poder utilizar e desenvolver esses sistemas”, aponta a investigadora, que trabalha nesta área há várias décadas.

Atualmente, as empresas de IA andam “a correr uns atrás dos outros” e “não há ninguém neste momento que tenha capacidade de indicar que o rei vai nu e que grandes desenvolvimentos na inteligência artificial que nos estão a ser vendidos têm muito pouco a ver com as capacidades e com as funções que nós precisamos para resolver os problemas que temos”, critica.

A IA não é panaceia, uma vez que muitos dos problemas globais que existem, desde conflitos às alterações climáticas, “não vão ser resolvidos com mais inteligência” artificial.

Pelo contrário, o que é preciso é “mais cooperação, é mais diálogo, é mais força de vontade para resolver as coisas e nada disso é resolvido por um sistema de IA mais competente”, defende.

“Não é por desenvolvermos sistemas de IA com mais capacidade que vamos resolver alguma coisa em termos da desigualdade ou da falta de justiça e da falta de integração e de colaboração”, pois são problemas diferentes que têm de ser resolvidos “de maneira diferente”.

Mas a ideia que está a ser vendida é que a IA, nomeadamente quando se chegar à AGI [Artificial General Intelligence ou Inteligência Artificial Geral, que se pensa que irá ter uma capacidade intelectual superior aos humanos] ou à ‘Singularity’ [em que as máquinas superam a inteligência humana] “nos vai resolver todos os problemas”, “mas não vai”, reforça a académica.

“Nem todas as técnicas e métodos e teorias que temos necessitam desta capacidade astronómica de dados” que os modelos de IA estão a usar. O que é preciso “neste momento, e principalmente para garantirmos a diversidade e a inclusão” é, primeiro, “entendermos que não há uma solução única para todos os nossos problemas, nem todos os nossos problemas são problemas que são resolvidos com mais inteligência ou com mais capacidade cognitiva”, explica.

Depois, principalmente, “a capacidade de entendermos e de integrarmos as soluções com os contextos em que estão a ser utilizadas”.

Para contextos diferentes, as soluções têm de ser diferentes, defende.

Existe a ideia de que a única maneira de desenvolver mais IA “é com mais dados e mais centros de dados e mais consumo de energia para desenvolver estes centros de computação enormes que estão a ser desenvolvidos”, mas quando mais “formos nessa direção, o mais difícil será chegarmos à conclusão de que temos que ter muito mais atenção ao contexto em que as coisas estão a ser desenvolvidas e utilizadas”, aponta.

A investigadora defende que “é necessário haver mais ferramentas na caixa das ferramentas do que só uma igual” com a ideia que vai resolver tudo, mas “só a chave de parafusos não serve para tudo”.

Quanto às notícias recentes das grandes empresas de IA sobre os riscos, travar o desenvolvimento da tecnologia, entre outros temas, deve ser visto, segundo a investigadora, numa ótica de marketing.

“Tudo o que estamos a ver sair nas últimas semanas das grandes empresas, da Open AI, da Anthropic”, entre outras, “são comunicados para os investidores”, “estão todos nesta corrida louca de que precisam de triliões”, diz.

Como andam “todos nesta corrida frenética e desenfreada” para captar mais investimento, “tudo o que estão a fazer neste momento tem que ser entendido dentro desse contexto”, ou seja, estão “a tentar convencer os grandes investidores” que estão melhor posicionados em termos de perceberem os riscos e terem capacidade de parar as ações dos agentes de IA que estão a desenvolver, contextualiza.

No fundo, “estão todos a tentar mostrar aos investidores que estão melhores do que os outros” e isso tem “mais a ver com marketing”.

Quanto ao caso dos modelos de IA OpenAI que conseguiram escapar do seu ambiente de testes e violar as defesas da plataforma Hugging Face, Virginia Dignum explica que “sistemas, tanto de IA como qualquer outro sistema de computação, têm capacidade, já de há muitos anos, de atacar outros sistemas”.

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Fonte: Notícias ao Minuto

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