Hipoacusia e vida em casal: Como a perda auditiva tem um forte impacto

Pode nunca ter pensado neste tema, mas a perda auditiva pode ter algum impacto na vida em casal. A comunicação acaba por ser um dos pilares essenciais e os problemas de audição podem desta forma ser um entrave. Em entrevista ao Lifestyle ao Minuto, a audiologista da Widex Marta Gomes falou sobre a forma com […]

Hipoacusia e vida em casal: Como a perda auditiva tem um forte impacto
Hipoacusia e vida em casal: Como a perda auditiva tem um forte impacto


Pode nunca ter pensado neste tema, mas a perda auditiva pode ter algum impacto na vida em casal. A comunicação acaba por ser um dos pilares essenciais e os problemas de audição podem desta forma ser um entrave.

Em entrevista ao Lifestyle ao Minuto, a audiologista da Widex Marta Gomes falou sobre a forma com a perda auditiva, ou a hipoacusia, acaba por afetar uma relação, que sinais de alerta a que deve estar atento e que soluções podem ser encontradas.

“Quando um dos elementos começa a apresentar algumas dificuldades em compreender o que o outro diz, mais notórias em ambientes com algum ruído, podem surgir entropias na comunicação, expressas pela necessidade constante de repetição da mensagem verbal, divergências e/ou frustração”, começa por dizer a especialista.

Abordou ainda a questão do estigma que muitas vezes se associa ao uso de aparelhos, mas que a indústria tem trabalho no sentido de o minimizar.

“A investigação e a indústria têm contribuído para um aumento da literacia e consciencialização sobre a importância da saúde auditiva, bem como as soluções serem cada vez mais discretas.”
  Marta Gomes é audiologista da Widex© Widex

Como é que a perda auditiva pode afetar a vida de um casal?

A perda auditiva (hipoacusia) pode ter um impacto considerável na dinâmica conjugal, especialmente porque uma comunicação eficaz é basilar nas relações íntimas e no ajustamento conjugal. Quando um dos elementos começa a apresentar algumas dificuldades em compreender o que o outro diz, mais notórias em ambientes com algum ruído, podem surgir entropias na comunicação, expressas pela necessidade constante de repetição da mensagem verbal, divergências e/ou frustração. 

Com o passar do tempo, tais dificuldades podem acentuar-se e gerar cansaço comunicativo bidirecional. Quem tem hipoacusia pode sentir fadiga auditiva em resultado do esforço realizado para acompanhar conversas, enquanto o cônjuge ou parceiro pode sentir frustração pela necessidade de constante repetição do que disse. Esta situação pode comprometer a qualidade das interações diárias e, em alguns casos, verifica-se a redução e inibição da espontaneidade nas conversas e demais interações, afetando particularmente o cônjuge, que é geralmente a pessoa mais próxima.

Pode levar ao distanciamento, mas de uma forma silenciosa?

Geralmente o impacto ocorre de forma gradual e silenciosa. A pessoa com perda auditiva pode começar a evitar determinadas situações sociais, locais ou conversas mais longas porque exigem demasiado esforço para acompanhar.

Este fenómeno pode levar a uma diminuição da participação em diálogos ou atividades partilhadas, o que pode ser interpretado como desinteresse ou falta de atenção. Menos atividades partilhadas, menos trocas de ideias, menos interações fora de casa, podem diminuir a coesão do casal. Na realidade, trata-se frequentemente de uma estratégia inconsciente para evitar frustração ou fadiga associada à escuta. É um distanciamento progressivo, muitas vezes não verbalizado, mas estrutural.

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É algo muitas vezes negligenciado e que acaba por passar despercebido?

A perda auditiva tende a ser subvalorizada ou atribuída a outros fatores, como distração, cansaço ou falta de atenção. Surge habitualmente de forma gradual, tanto a própria pessoa como quem convivem com ela, podem adaptar-se progressivamente às dificuldades sem reconhecer imediatamente a origem do problema. Além disso, ainda existe algum desconhecimento sobre os sinais precoces de perda auditiva, o que contribui para um atraso na procura de ajuda e avaliação clínica especializada.
 
Quais são os primeiros sinais de perda auditiva a que deve estar atento?

De forma sucinta, alguns sinais iniciais incluem: dificuldade em discriminar a fala em ambientes com ruído; necessidade frequente de pedir para repetir a mensagem; sensação de que as pessoas falam “baixo” ou de forma pouco clara; aumento do volume da televisão ou do som do telemóvel; dificuldade em acompanhar conversas em grupo; Estes sinais nem sempre são imediatos ou evidentes, mas quando começam a ocorrer de forma recorrente podem indicar a necessidade de uma avaliação auditiva.

É algo que o parceiro também consegue notar e alertar?

Sim e em muitos casos é o parceiro ou familiares próximos que identificam os primeiros sinais. Reparam com alguma facilidade que o outro fala mais alto, solicitam repetições da mensagem falada com frequência, aumentam o volume da televisão ou rádio e podem não detetar determinados sons do ambiente, tais como campainhas ou alertas acústicos de eletrodomésticos, por exemplo. Por isso, destaco a importância do papel de quem convive de perto e diariamente com a pessoa que apresente incapacidade auditiva.
 
Como é que pode incentivar o parceiro a procurar alguma ajuda?

Acredito que a melhor abordagem passará por atitudes empáticas e não acusatórias, abordando o impacto no bem-estar de ambos. A sensibilização para a necessidade de uma avaliação, diagnóstico e procura de soluções deve ser vista como algo natural e benéfica. 
 A pessoa pode não perceber imediatamente que está a ouvir menos, especialmente porque tende a usar pistas visuais ou contextuais para compensarUma pessoa pode estar com dificuldade auditiva sem ter noção?

Se a perda auditiva for progressiva e a um ritmo lento, a pessoa (e o seu cérebro) tende a adaptar-se à diminuição de informação sonora, utilizando estratégias compensatórias tais como uso consistente da leitura labial e o afastamento de determinados contextos ou locais. Como consequência, a pessoa pode não perceber imediatamente que está a ouvir menos — especialmente porque tende a usar pistas visuais ou contextuais para compensar. São muitas vezes os outros com quem convive, os primeiros a aperceberem-se da diminuição da capacidade auditiva. 

Quais são as consequências de um atraso no diagnóstico e na procura de ajuda?

O atraso na identificação e diagnóstico da hipoacusia pode prolongar e acentuar as dificuldades de comunicação e o impacto psicossocial associado. Como consequências mais comuns destaco a frustração comunicativa, isolamento social, redução em termos quantitativos e qualitativos das interações e atividades, maior esforço cognitivo para compreender a fala, fadiga auditiva e até o potenciar o aparecimento de acufenos. 

Quanto maior o tempo sem estimulação da via auditiva e áreas corticais de forma correta, maior serão os desafios encontrados para reabilitar a escuta e readaptar o cérebro aos estímulos sonoros do quotidiano. 

Que tipo de soluções podem ser encontradas?

As soluções dependem da causa e do grau da perda auditiva, mas atualmente existem diversas opções de dispositivos médicos para se iniciar um processo de (re)habilitação auditiva. Estas podem incluir aparelhos auditivos tecnologicamente avançados, implantes auditivos, estratégias de comunicação, aconselhamento auditivo e treino de competências auditivas e até terapia sonora. A avaliação por profissionais de saúde auditiva habilitados, permite identificar a solução mais adequada para cada pessoa, considerando para além da condição clínica e audiológica, o estilo de vida e necessidades comunicativas e individuais. 

O uso de aparelhos ainda é visto como um estigma ou algo que só os mais velhos têm?

Na prática clínica diária e ao longo dos anos tenho verificado uma diminuição do estigma associado ao uso de dispositivos auditivos. Hoje vivemos mais, é certo, mas queremos fazê-lo com maior qualidade de vida. A investigação e a indústria têm contribuído para um aumento da literacia e consciencialização sobre a importância da saúde auditiva, bem como as soluções serem cada vez mais discretas, práticas e com melhor performance acústica, que se adaptam a diferentes perfis de utilizadores. 

Há cada vez mais jovens com problemas auditivos? O que pode justificar? 

Os estudos científicos apontam para um aumento da exposição a fatores de risco em jovens, relacionados com ambientes sonoros intensos e uso prolongado de auscultadores com níveis de pressão sonora elevados. A prevenção — incluindo a gestão do volume e tempo de exposição, bem como o uso de proteção auditiva em ambientes ruidosos — é fundamental para preservar a saúde auditiva ao longo da vida.

Existem hábitos diários que podem estar a afetar a sua audição e nem se dá conta. Neste Dia Mundial da Audição, que se assinala esta terça-feira, saiba o que pode estar a prejudicar a forma como está a ouvir.

Adriano Guerreiro | 08:42 – 03/03/2026



Fonte: Notícias ao Minuto

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