
“Diz a sabedoria popular que não há mal que sempre dure. É uma promessa que nos reconforta, até ao dia em que a dor decide ficar, porque há dores que parecem não conhecer esse ditado. E também não obedecem aos nossos comandos, nem tiram férias. Podemos mudar de ambiente, interromper as rotinas mais exigentes e afastar-nos das preocupações habituais, mas o cérebro que aprendeu a viver em alerta não vai entrar automaticamente em repouso só porque chegaram as férias.
Para muitas pessoas que vivem com dor crónica, mudar de ambiente ou suspender o trabalho não significa mudar de corpo. Para essas pessoas, as férias podem exigir quase tanto planeamento como um dia de trabalho.
Para a ciência, a dor torna-se crónica quando persiste ou regressa durante mais de três meses. Para quem vive com ela, três meses não são apenas um critério de diagnóstico, é o início de uma vida que começa a reorganizar-se à volta da dor. E nas férias a dor viaja connosco, impõe outro ritmo e transforma o que deveria ser uma pausa num exercício diário de negociação com os próprios limites.
Há uma regra silenciosa nesta época do ano. Nas férias todos devem estar bem. E explicar que a dor permanece quando tudo à nossa volta convida ao descanso pode ser extremamente frustrante. A dificuldade aumenta ainda mais quando os exames médicos não identificam uma lesão capaz de dar conta da natureza e da intensidade da dor.
A dor nem sempre nos diz quanto dano existe no corpo. O que ela nos diz é quanto perigo o cérebro acredita existir. E essas duas medidas não são necessariamente iguais. Aquilo que a medicina não consegue localizar numa imagem não deixa de ser real. Nem todas as dores aparecem numa imagem. Mas quem vive com elas sabe exatamente o espaço que ocupam.
É aqui que o cérebro entra na história, não como um espectador passivo, mas como parte ativa na construção da experiência de dor. O cérebro reúne memórias, emoções, expectativas e até as reações das pessoas à nossa volta para decidir quanto perigo existe naquele momento. E aqui importa deixar claro que esse processo não faz com que a dor crónica seja imaginária. Torna-a uma experiência ainda mais complexa e mais solitária. É por isso que a dor pode intensificar-se quando nos sentimos sós ou ansiosos e recuar quando o contexto social nos transmite segurança. Nesse sentido, a dor é uma experiência de proteção. E um cérebro que aprendeu a permanecer vigilante pode continuar a soar o alarme mesmo depois de o perigo ter diminuído, ou durante as férias.”
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Fonte: Notícias ao Minuto
