
Cata Vassalo, Josefinas, Bárbara Corby, Marlene Vieira. O que têm em comum? São mulheres bem sucedidas, que estão por trás de verdadeiros impérios nas respetivas áreas profissionais.
A propósito do Dia Mulher que este domingo se assinala, o Lifestyle ao Minuto esteve à conversa com cada uma delas.
Procurámos ficar a conhecer um pouco da sua história, assim como os maiores desafios que enfrentaram numa área ainda dominada por homens e os conselhos que dão a mulheres, que tal como elas, querem construir um projeto com as próprias mãos.
O mundo dos negócios continua a ser “dominado” pelos homens. Isto, de alguma maneira, dificultou a vossa caminhada? Em algum momento sentiram-se menosprezadas ou menos valorizadas enquanto empreendedoras por serem mulheres?
Cata Vassalo: Tenho a sorte de estar num universo muito feminino. Até há bem pouco tempo éramos só mulheres na marca e as nossas consumidoras são principalmente mulheres, embora cada vez mais tenhamos clientes do sexo masculino que nos escolhem para oferecer presentes ou para terem uma peça mais icónica para eles mesmos.
Sempre fizemos o nosso caminho, um caminho muito próprio e ao nosso ritmo e dentro de um ecossistema sobretudo feminino. Adoramos que assim seja e sentimo-nos muito realizadas por isso.
Catarina Vassalo, fundadora e designer da marca Cata Vassalo© Cata Vassalo
Josefinas (respostas dadas por Daniela Brito CEO e Diretora de Marketing da marca): Felizmente, não sentimos isso na Josefinas, talvez porque sempre procuramos usar esse facto a nosso favor. A Josefinas é uma marca fundada por mulheres e isso foi assumido, desde o início, não só como parte da nossa história, mas como um ponto forte e diferenciador.
A mulher está no centro de tudo o que criamos, com muito orgulho. Optamos por assumir a nossa feminilidade como um ponto forte e não como uma fragilidade.Na Josefinas somos, ainda hoje, mulheres (e também alguns homens!) a criar peças de forma artesanal, que contam histórias de mulheres e que são pensadas para valorizar a mulher real que as usa. A mulher está no centro de tudo o que criamos, com muito orgulho. Optamos por assumir a nossa feminilidade como um ponto forte e não como uma fragilidade. A nossa história foi sempre muito bem acolhida pelas nossas clientes e elas são os nossos “críticos” mais importantes e são quem escolhemos ouvir.
Bárbara Corby: Confesso que não. Tive a sorte de trabalhar, ao longo destes quase cinco anos, com grandes mulheres. Tanto o atelier, como a fábrica com quem trabalhamos atualmente, são geridos por mulheres, e sempre senti um enorme respeito da parte de todos os envolvidos.
Tenho consciência de que esta não é a realidade em todas as áreas, mas talvez o facto de empreender na indústria têxtil — um setor historicamente muito feminino — tenha contribuído para que a minha experiência fosse positiva nesse sentido.
Marlene Vieira: Sim na restauração, em outros negócios já é mais comum vermos um maior equilíbrio. A minha empresa vai fazer 13 anos e, desde o segundo ano de existência, que somos PME líder consecutivamente, apresentamos prejuízo apenas em 2020 e 2021 devido à crise do Covid quando nos fecharam portas. No ano seguinte apresentamos lucro e em crescimento, sem qualquer entrada de financiamento externo. Dos 5 restaurante que temos, três deles estão presentes nos principais guias, como o guia Michelin e outros, dois com estrela Michelin.
Quais os maiores desafios com que se depararam no início da marca? E depois, uma vez alcançado o sucesso?
Cata Vassalo: O maior desafio é rodearmo-nos de pessoas boas com bons valores e bons princípios. Tudo o resto se constrói. Não existem caminhos fáceis. Tudo é feito com esforço, dedicação, com altos e baixos, com dúvidas mas sempre a olhar em frente e a pensar que somos nós que construímos aquilo que queremos.
Não pode haver ilusões: criar uma marca em Portugal não é fácil, mas mantê-la ao longo dos anos, com integridade e coerência, é o verdadeiro desafio.
Josefinas: Não pode haver ilusões: criar uma marca em Portugal não é fácil, mas mantê-la ao longo dos anos, com integridade e coerência, é o verdadeiro desafio. A Josefinas surgiu numa altura em que o luxo contemporâneo não estava ainda associado à herança e mestria artesanal portuguesa. Este cenário evoluiu bastante na última década, mas continua a ser difícil valorizar de forma justa o que é feito artesanalmente no nosso país. Portugal produz calçado e marroquinaria de qualidade excecional, mas ainda existe algum desconhecimento por parte do consumidor, que tem dificuldade em reconhecer-lhe o seu verdadeiro valor.
O nosso compromisso foi, por isso, o de dar a conhecer os nossos produtos mas também sensibilizar o mercado sobre o valor do saber-fazer nacional. Uma vez alcançado o reconhecimento, surge a pressão própria do setor da moda: a exigência de novidades constantes, de comunicar sem pausas e de seguir tendências passageiras a uma velocidade vertiginosa. É preciso muita consciência e disciplina para não nos deixarmos levar por correntes que nos puxam constantemente em direções opostas aos nossos valores. Mas na realidade, o sucesso nunca é um destino alcançado, é um trabalho constante, exigente e que nunca pode ser descurado.
É fundamental fazer um bom plano de negócio e perceber se o projeto pode ser sustentável. No final do dia, um negócio precisa de ser sustentável e rentável para crescer.
Daniela Brito, CEO e Diretora de Marketing das Josefinas© Josefinas
Bárbara Corby: Diria, antes de mais, para pensarem muito bem no produto. Muitas vezes apaixonamo-nos por uma ideia, mas isso não significa necessariamente que exista mercado para ela. Depois, é fundamental fazer um bom plano de negócio e perceber se o projeto pode ser sustentável. No final do dia, um negócio precisa de ser sustentável e rentável para crescer.
Marlene Vieira: Os maiores desafios são todos de quem está a entrar numa profissão, estamos cheios de insegurança e é natural, quanto mais conhecimento maior é a confiança. Talvez a agressividade que se vive dentro das cozinhas de topo, o abuso psicológico e físico que surgiu logo na formação profissional.
Para as mulheres que sonham em ter um negócio próprio, se fossem vossas amigas, quais os conselhos que lhes dariam?
Cata Vassalo: Nunca desistir. E ter consciência de que tudo demora tempo e implica dedicação. Nada se faz sem empenho e não existem caminhos só positivos. Há 99 nãos para um sim.
Existe por vezes uma romantização excessiva do empreendedorismo, a ideia de que teremos mais liberdade, tempo, sucesso ou reconhecimento imediato. Na realidade, este é um dos caminhos mais difíceis que se pode escolher, embora seja imensamente recompensador.Josefinas: O nosso conselho seria: tenham a certeza absoluta de que é isto que desejam. Existe por vezes uma romantização excessiva do empreendedorismo, a ideia de que teremos mais liberdade, tempo, sucesso ou reconhecimento imediato. Na realidade, este é um dos caminhos mais difíceis que se pode escolher, embora seja imensamente recompensador. Ninguém fala sobre as partes duras ou as decisões difíceis.
Todos querem estar presentes nos momentos de brilho, mas poucos estarão lá nas dificuldades. Por vezes vão perder pessoas pelo caminho, inclusive aquelas que partilhavam o sonho convosco. O segredo é aceitar essa realidade, manter a integridade e seguir em frente com muita resiliência e dignidade.
Bárbara Corby: Diria, antes de mais, para pensarem muito bem no produto. Muitas vezes apaixonamo-nos por uma ideia, mas isso não significa necessariamente que exista mercado para ela.Depois, é fundamental fazer um bom plano de negócio e perceber se o projeto pode ser sustentável. No final do dia, um negócio precisa de ser sustentável e rentável para crescer.
Marlene Vieira: Talvez, sejam autênticas e fortes quanto vezes possível, o caminho é árduo mas libertador.
Chef Marlene Vieira© Casa e Cozinha
Quais os passos que ainda faltam ser dados no incentivo ao empreendedorismo feminino, sobretudo em Portugal?
Cata Vassalo: Há muita coisa que podia e devia ser diferente no entanto, por uma questão de praticidade e de não adiarmos os nossos sonhos em prol do “e se…?”, acredito num princípio quase redutor: para se fazer… só tem que se fazer. E isso depende de nós mesmas.
Josefinas: Tal como acontece no mercado de trabalho, onde uma mulher muitas vezes só se candidata se reunir 100% das qualificações, o mesmo se verifica no empreendedorismo. Existe um receio muito grande do erro e da imperfeição que trava muitos projetos, apesar de existirem ideias com muito valor. É fundamental desconstruir a ideia de que precisamos de saber tudo antes de começar. Estamos todos em constante aprendizagem. Independentemente do género, da idade ou da experiência, estamos todos a tentar descobrir como dar o passo seguinte da melhor forma, sem o medo paralisante de cometer um erro.
Bárbara Corby: Acredito que ainda há espaço para criar mais apoio às pequenas empresas, sobretudo nos primeiros anos, que são sempre os mais exigentes. Mais incentivos, mais oportunidades e menos burocracia fariam certamente a diferença para quem quer começar.
Se a vossa marca fosse uma mulher (persona) como é que seria fisicamente e em termos de personalidade?
Cata Vassalo: Seria como somos enquanto equipa e como são as nossas Clientes: não teria idade nem caberia em nenhum label. Em termos de personalidade seria atenciosa, atenta, observadora, detalhista, motivada, trabalhadora, dedicada e sempre com vontade de aprender e de fazer mais e melhor.
Josefinas: Seria uma mulher de uma sofisticação sem esforço, que não precisa de pedir atenção, autorização ou validação. Cosmopolita, mas profundamente ligada à natureza, respira arte e nutre uma curiosidade insaciável pelo mundo. É independente, sonhadora e trabalhadora, revelando uma resiliência que não anula a sua sensibilidade. Alguém que, apesar da sua força individual, compreende o valor da comunidade e do coletivo, procurando tornar o mundo melhor com uma ação de cada vez. Fisicamente, teria traços que honram as suas raízes e um estilo que não conhece fronteiras, teria sem dúvida uma presença discreta mas marcante.
Bárbara Corby: Seria uma mulher confiante, feminina e naturalmente elegante. Alguém que gosta de viajar, de descobrir novos lugares e de aproveitar a vida com leveza. Fisicamente não a consigo definir, porque a ALMANDE não representa uma mulher específica — representa muitas. Cada mulher pode encontrar-se nela à sua maneira.
O Dia da Mulher serve para nos relembrar que quem comanda as nossas vidas somos nós mesmas, os nossos sonhos podem ser adiados mas não cancelados.Qual a mensagem que dariam a todas as mulheres (empreendedoras ou não) a propósito desta data?
Cata Vassalo: Para se ouvirem a si mesmas e para terem orgulho em quem são e no que fazem. Isso é o mais importante.
Josefinas: A nossa mensagem seria de apelo à vigilância e à consciência. Os nossos direitos não podem ser dados como garantidos. Estamos a assistir, em vários pontos do mundo, a retrocessos preocupantes nos direitos das mulheres. Não podemos baixar a guarda. Que este dia sirva para lembrar que o caminho percorrido foi longo, mas que a manutenção desse caminho exige que estejamos cada vez mais atentas, informadas, unidas e solidárias.
Bárbara Corby: Se o vosso objetivo é empreender e construir algo vosso, estejam preparadas para abdicar de algumas coisas pelo caminho. Não é um percurso fácil. Mas com resiliência, dedicação e consistência, as recompensas chegam. E para mim há uma que vale tudo: a liberdade.
Marlene Vieira: O Dia da Mulher serve para nos relembrar que quem comanda as nossas vidas somos nós mesmas, os nossos sonhos podem ser adiados mas não cancelados.
A marca das jardineiras mais cool cresce a olhos vistos e, no verão, poderá ser vista em personagens de uma série da Netflix Espanha. O Lifestyle ao Minuto falou com as fundadoras da Favorite People, Rita e Madalena Rugeroni sobre esta e mais conquistas.
Mariline Direito Rodrigues | 10:11 – 03/03/2026
Fonte: Notícias ao Minuto