
O fadista Calor Leitão partilhou nas redes sociais que recebeu um diagnóstico de cancro. O artista confessou que a sua primeira reação foi ir até ao “cemitério” visitar a campa do pai mas, depois de um momento mais introspectivo, mostra-se confiante e com “esperança”.
“«É um cancro». O tumor ocupa espaço e empurra para o lado tudo o resto: trabalho, contas, o empate do Benfica, as trombas do empregado ou o café frio, tudo se torna igual e esquecível. O sacana veio manso, de fininho, como um adolescente ébrio a entrar de madrugada. Castigou-me, instalou-se, e cresceu até as análises de rotina meterem a boca no trombone. E derrubou-me o lado racional que é fundamental para tratarmos do futuro: eu, ele, os médicos, a minha mulher, a minha família e os meus amigos”, começou por contar.
“Decidi ir ao cemitério fazer não sei bem o quê em meia hora de silêncio desabafado em frente à campa do meu pai, abracei os meus enteados com a certeza de que a travessia tem de ser feita com amor. Fechei-me para depois proteger todos os que não têm cancro e gostam de mim. É como se preocupar-me comigo fosse coisa secundária: revolta superior às dores, o medo a medir o desconhecido, e quando claudiquei foi para poder ter colo e suportar as horas capituladas do desespero”, acrescentou.
“Com a arrogância de achar que sou preciso, sei que ando a ser valente; sinto-o quando o corpo me fraqueja. Às dores dou-lhes o abraço da Vanda que tudo serena, e elas amagam-se. Às da alma ofereço o que escrevo, as visitas dos amigos, os jantares no terraço, os passeios esforçados pela minha linda vila. Os vieses da doença desarmam mais quando se acorda numa cama de hospital sem um pedaço físico que desconjuntou o puzzle que era o meu corpo. Nasce a dor imensa da tangibilidade. É uma bizarria sem cabimento. Sou tão vulnerável, pensei quando ouvia o meu vizinho do lado gemendo a dor, tão vulnerável quanto a perdiz que não se apercebe do caçador matreiro atrás da moita. É duro, as armas são desiguais”, escreveu também.
No fim da partilha, Carlos refere que já começaram os tratamentos e que se imagina, daqui a um ano, já recuperado.
“Vejo lá à frente a esperança, ignorante, esparvoada de tão infantil que pode ser. Ando a arrumar-me e a aproveitar a baixa para decidir futuros. Dizem que ajuda em tempos adversos. E daqui por um ano quero contar todos os passos em frente que dei no cancro e na vida, com roupas leves de linho e um chapéu Borsalino, ao género Bogart, que eu ando a adiar na minha vida. Os tratamentos começaram hoje. Seguimos. Juntos”, referiu.
Carlos Leitão começou a cantar desde criança e aos 10 anos ganhou a “Grande Noite do Fado” na categoria de juvenis, no Coliseu dos Recreios, segundo a informação disponível no site do Museu do Fado.
Já partilhou o palco com nomes como Cristina Branco, Custódio Castelo, Marco Rodrigues, Mário Pacheco, Cuca Roseta, Jorge Fernando, entre muitos outros. Licenciou-se em jornalismo mas abandonou a profissão após vários anos para se dedicar à música e começou a fazer parte do elenco fixo do Clube de Fado, em Lisboa.
Carlos Leitão editou o seu primeiro disco de originais “Do Quarto” em 2013 e teve Gisela João como convidada. O seu terceiro disco de originais, “Casa Vazia”, foi editado em 2019 com a ajuda de Salvador Sobral, João Só, Marco Rodrigues, Júlio Machado Vaz, Tó Zé Brito, Marco Horácio, Júlio Resende entre muitos outros.
“Simples” foi lançado em Fevereiro de 2022 e conta com 11 temas da autoria de Carlos sendo que a última faixa foi composta por Tiago Torres da Silva e Paulo de Carvalho.
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Fonte: Notícias ao Minuto
