
Quem faz anos no dia de Natal, ou nesta altura de festas, pode não conseguir juntar os amigos como gostaria e como vê outros fazerem noutras épocas do ano. Quando se é mais pequeno, esta privação de um aniversário pode significar muito e é importante saber lidar da melhor forma. Por outro, a falta de dois presentes pode também ser uma questão.
“Não é, essencialmente, o presente que falta, é o símbolo: a ideia de ser única, irrepetível, celebrada por inteiro“, começa por dizer a Tânia Almeida, psicóloga clínica do Núcleo CASA, em entrevista ao Lifestyle ao Minuto.
Numa altura em que os miúdos são mais pequenos, é algo que precisa de ser falado, tudo para evitar consequências mais tarde. “O centro parece serem os presentes, mas na verdade é mais do que isso: é se o ‘seu dia’ é apressado como se o Natal fosse maior”, continua a especialista.
Se esta falta de festas e reconhecimento acabar por ser recorrente, poderá ser algo que a criança transporte para outras áreas da sua vida. “Se, ano após ano, a criança sente que o seu dia passa para segundo plano, pode crescer com dificuldade em ocupar espaço, em celebrar quem é e até as suas conquistas.”
Tânia Almeida é psicóloga clínica do Núcleo CASA© Núcleo CASA
Pode uma criança sentir que está a receber menos prendas do que outros amigos quando não recebe duas prendas, uma no Natal e outra no aniversário?
Para uma criança, o aniversário é uma espécie de farol: um dia em que o mundo parece acender-se só para ela. Quando esse dia nasce colado ao Natal, pode surgir a sensação de que a sua luz fica ofuscada por outras luzes maiores. Não é, essencialmente, o presente que falta, é o símbolo: a ideia de ser única, irrepetível, celebrada por inteiro.
Como lidar com uma situação destas, em que não é possível dar duas prendas? Como explicar a situação a uma criança?
A explicação não precisa de ser longa, precisa de ser verdadeira. As crianças entendem mais do que imaginamos quando se sentem emocionalmente acompanhadas e integradas. Dizer “percebo que isto te entristeça” é, muitas vezes, mais importante do que qualquer justificação prática. Quando um adulto valida o sentimento, a criança aprende que as emoções têm lugar, mesmo quando a realidade não muda. O centro parece serem os presentes, mas na verdade é mais do que isso: é se o ‘seu dia’ é apressado como se o Natal fosse maior.
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Que estratégias podem ser usadas para minimizar a questão? Juntar decorações de aniversário no meio das de Natal? Ou, por exemplo, ter um bolo de aniversário ao lado do tronco de Natal?
Criar um espaço só dela, mesmo no meio da festa de Natal. Um bolo com velas próprias, um momento em que os parabéns não se misturam com cânticos natalícios, um pequeno ritual que diga: “Hoje também és tu.” Não se trata de separar o Natal do aniversário, mas de garantir que a criança não se perde dentro dele. Um gesto simbólico pode ser tão poderoso como uma grande celebração. E não faz mal no Natal haver uma decoração não típica. Corremos atrás das mesas de Natal instagramáveis, quando na verdade a essência de sermos únicos poderá ser maior.
Esta situação pode ter repercussões mais tarde, em adulto?
As datas, por si só, não deixam marcas. O que fica é a forma como nos sentimos (in)visíveis. Se, ano após ano, a criança sente que o seu dia passa para segundo plano, pode crescer com dificuldade em ocupar espaço, em celebrar quem é e até as suas conquistas. Mas quando aprende que, mesmo em contextos desafiantes, as pessoas a reconhecem e a celebram, essa memória torna-se uma âncora emocional segura.
Fazer uma festa de aaniversário nesta altura pode ser complicado, devido a férias e ao Natal em família. Como lidar com uma situação assim? Fazer a festa de anos mais tarde pode ser uma solução?
Adiar pode ser cuidar. Uma festa em janeiro pode ter o mesmo valor simbólico, desde que seja vivida como um prolongamento do aniversário e não como um adiamento da importância. O essencial é que exista um tempo no calendário, e acima de tudo no coração, reservado para aquela criança e para os seus laços. O aniversário é o tempo de celebrarmos quem somos e isso pode ser fora da data de calendário.
E se a festa acabar por não acontecer? O não juntar os amigos por ocasião do aniversário pode ter consequências mais tarde?
Mais do que a festa, conta a mensagem. Se a criança sentir que foi esquecida, isso terá impacto na forma de a criança integrar. Mas se sentir que foi pensada, mesmo sem festa, aprende que o afeto não depende de circunstâncias perfeitas. O que realmente deixa marcas não é a ausência de balões ou dos convidados, mas a ausência de olhar atento e de um afeto que traga segurança sobre quem somos e sobre o lugar que ocupamos nos outros.
Um aniversário vivido perto do Natal não tem de ser uma perda. Pode ser, pelo contrário, um lugar de dupla ternura, desde que a criança saiba, sem dúvidas, que há um dia no ano em que ela é o centro da celebração. Mesmo no meio das luzes de dezembro, cada criança merece a sua própria luz. E isto é tão verdade para as crianças, como para os crescidos.
E se o maior peso do Natal não estiver no prato, mas nas palavras? Esta pode ser uma época de angústia para pessoas com distúrbios alimentares (apesar de nem sempre serem visíveis). Falámos com uma psicóloga que deixou orientações úteis para quem vive, ou convive, com este tipo de sofrimento.
Inês Morais Monteiro | 09:30 – 23/12/2025
Fonte: Notícias ao Minuto
