
E quando a morte chega à vida de alguém? O luto continua a ser um dos temas mais difíceis de tratar na sociedade, dado o tabu ainda existente à volta do mesmo, bem como a falta de conhecimento das pessoas sobre como lidar com ele – quer nos casos em que perdem um ente querido ou mesmo um animal de estimação, quer nos momentos em que uma pessoa próxima está a viver o luto.
Como se deve agir? Quando é necessário procurar ajuda especializada? O que se deve e o que não se deve fazer no apoio a alguém enlutado?
Em entrevista ao Lifestyle ao Minuto, Daniela Alves Nogueira, psicóloga clínica, especialista em luto, e diretora da Organização Local da European Grief Conference 2026, que se realizará no Porto entre os dias 9 e 11 de setembro, respondeu a estas e outras questões.
Para quem não sabe o que é o European Grief Conference, em que é que o evento consiste e qual o principal objetivo?
A European Grief Conference é o maior evento científico europeu dedicado exclusivamente ao luto baseado num modelo de saúde pública em que distingue por níveis de intervenção o apoio que os enlutados poderão necessitar. Reúne investigadores, clínicos, educadores e profissionais de saúde de toda a Europa e de outros continentes, com o objetivo de partilhar os avanços mais recentes na ciência do luto: o que sabemos sobre como as pessoas experienciam a perda, o que as ajuda a integrá-la, e como devemos organizar os serviços de apoio às comunidades enlutadas.
Este ano, em 2026, temos o privilégio de acolher a conferência em Portugal pela primeira vez, no Porto, entre 9 e 11 de setembro, e isso representa um momento de relevo para a área do luto no nosso país. O tema central desta edição é o luto no contexto das incertezas globais: um enquadramento que reconhece que vivemos numa era marcada por perdas coletivas cada vez mais frequentes e complexas, desde as catástrofes naturais resultantes das alterações climáticas, como os terramotos, as cheias, os incêndios, até às crises humanitárias e às ameaças que as próprias incertezas do mundo contemporâneo colocam ao bem-estar das comunidades.
É uma oportunidade única de trazer para Portugal o que há de mais atual neste campo a nível mundial, e simultaneamente de mostrar ao contexto europeu o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido por investigadores e clínicos portugueses.
© Psicóloga Daniela Alves Nogueira
Ao contrário de gerações anteriores, em que a morte acontecia em casa, era presenciada e ritualizada coletivamente, hoje a morte acontece nos hospitais, longe dos olhos, e o luto é tratado como um assunto privado Porque é que o luto ainda é tão vivido em silêncio e de forma solitária?
Porque vivemos numa cultura que tem uma relação muito difícil com a dor e com a morte. Aprendemos desde cedo que ser forte é não mostrar que estamos a sofrer, que o choro é sinal de fraqueza, que “a vida continua” e que devemos “seguir em frente” o mais depressa possível. Estas mensagens, transmitidas muitas vezes com a melhor das intenções, têm um efeito perverso: ensinam os enlutados a esconder o que sentem para não incomodar, para não ser um fardo, para corresponder às expectativas de quem os rodeia.
A isto acresce o facto de a morte ter sido progressivamente afastada do quotidiano. Ao contrário de gerações anteriores, em que a morte acontecia em casa, era presenciada e ritualizada coletivamente, hoje a morte acontece nos hospitais, longe dos olhos, e o luto é tratado como um assunto privado.
Estamos progressivamente a perder os rituais coletivos das cerimónias fúnebres, o luto social, visível, que dava às pessoas um espaço reconhecido para sofrer, e não os substituímos por nada. O resultado é que muitas pessoas ficam sozinhas com uma dor que não sabem nomear, sem linguagem para a expressar e sem espaço social para o fazer.
O que a investigação nos diz é que um luto saudável não é um luto silencioso, nem rápido, nem linear. É um processo de adaptação à realidade de uma perda que não tem retorno, o que implica integrar essa perda na própria identidade e na própria história de vida O que é, afinal, um processo de luto saudável? Existe uma forma “certa” de viver o luto?
Não existe uma forma “certa” de viver o luto, e esta é talvez a mensagem mais importante que podemos transmitir. O luto é uma resposta humana natural à perda de alguém ou de algo significativo, e as suas manifestações são tão diversas quanto as pessoas e as relações que existem no mundo.
O que a investigação nos diz é que um luto saudável não é um luto silencioso, nem rápido, nem linear. É um processo de adaptação à realidade de uma perda que não tem retorno, o que implica integrar essa perda na própria identidade e na própria história de vida. E esta palavra – integrar – é fundamental: não se trata de voltar ao que se era antes, porque isso não é possível.
Quem perde alguém significativo é, inevitavelmente, uma pessoa diferente depois dessa perda. O objetivo não é regressar a um estado anterior, mas construir uma nova identidade que inclua essa perda, sem que ela paralise a vida. Um luto saudável não significa esquecer quem se perdeu, significa aprender a carregar essa presença de uma forma que permita continuar a viver com sentido, com ligação aos outros, e com capacidade de encontrar propósito no dia a dia.
A ideia de que o luto segue fases fixas e ordenadas, popularizada pelo modelo de Elisabeth Kübler-Ross com as suas cinco fases: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação, é hoje considerada cientificamente ultrapassada, embora continue a ser amplamente divulgada Quais as fases de um luto considerado “saudável”?
A ideia de que o luto segue fases fixas e ordenadas, popularizada pelo modelo de Elisabeth Kübler-Ross com as suas cinco fases: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação, é hoje considerada cientificamente ultrapassada, embora continue a ser amplamente divulgada. A investigação contemporânea mostra-nos que o luto não é linear nem previsível: as pessoas não passam pelas mesmas etapas, na mesma ordem, com a mesma duração. O que não significa que muitas das emoções elencadas nesse modelo não continuem a manifestar-se.
O que os modelos mais atuais propõem, como o Modelo de Processo Dual de Stroebe e Schut, é uma oscilação natural entre dois polos: momentos em que a pessoa se confronta com a dor da perda, e momentos em que se orienta para a reconstrução da sua vida. Esta oscilação não é fraqueza nem inconsistência, é o mecanismo saudável que o sistema humano usa para processar algo demasiado intenso para ser absorvido de uma só vez.
O que importa não é em que “fase” a pessoa está, mas se essa oscilação está a acontecer, se há espaço para a dor e espaço para a reorganização da vida, e se a pessoa está a conseguir, gradualmente, adaptar-se à realidade da perda e integrá-la na sua nova identidade.
Quais são os mitos mais comuns sobre o luto que continuam a persistir na sociedade?
São muitos, mas os mais persistentes e mais danosos são:
O mito de que o luto tem um prazo. A ideia de que ao fim de um ano ou seis meses, ou dois anos, conforme a versão, a pessoa “devia já estar bem” é uma das crenças mais prejudiciais que existem. O luto não tem prazo. Tem um ritmo próprio, que varia imensamente de pessoa para pessoa. Mesmo que existam critérios temporais para o diagnóstico, mas tem de coexistir com outros sinais e sintomas.
O mito de que chorar muito é fraqueza ou que não chorar significa que não se amava. Há pessoas que choram pouco e sofrem profundamente. Há pessoas que choram muito e integram bem a perda. A expressão emocional não é um indicador fidedigno da profundidade do luto.
O mito de que falar sobre o falecido faz mal, que é “reabrir a ferida”. Na verdade, para a maioria das pessoas, poder falar sobre quem perderam, recordar, partilhar memórias, dizer o nome em voz alta, é parte essencial do processo de integração da perda.
O mito de que o tempo cura tudo. O tempo por si só não cura nada. O que faz a diferença é o que acontece nesse tempo: o apoio social, os rituais, a possibilidade de processar a dor.
E talvez o mais subtil de todos: o mito de que um bom luto é um luto discreto, que não incomoda. Este mito faz com que os enlutados se sintam obrigados a gerir não só a sua dor, mas também o desconforto de quem os rodeia, e isso é um peso que ninguém deveria ter de carregar.
Se a dor está a impedir a pessoa de viver — não de ser feliz, mas de funcionar minimamente —, é altura de pedir ajuda. E pedir ajuda é, em si mesmo, um ato de coragem e de cuidado consigo próprioPara uma pessoa que está de luto, como saber se precisa de ajuda especializada?
A fronteira entre um luto doloroso mas natural e um luto que beneficiaria de apoio especializado não é sempre fácil de identificar — e é importante dizer que procurar ajuda não significa que algo está “errado” com a pessoa.
Há alguns sinais que merecem atenção: quando a intensidade do sofrimento não diminui ao longo do tempo, mas se mantém ou aumenta; quando a pessoa se encontra tão absorvida pela dor que deixou de conseguir cuidar de si própria, trabalhar, ou manter relações significativas; quando surgem pensamentos intrusivos e recorrentes sobre as circunstâncias da morte, pesadelos, ou evitamento persistente de tudo o que recorde o falecido — o que pode indicar a presença de componentes traumáticos; ou quando a pessoa sente que a sua vida perdeu completamente o sentido e que o futuro é impossível.
A regra prática que costumo partilhar é esta: se a dor está a impedir a pessoa de viver — não de ser feliz, mas de funcionar minimamente —, é altura de pedir ajuda. E pedir ajuda é, em si mesmo, um ato de coragem e de cuidado consigo próprio.
Para quem “está de fora”, como ajudar uma pessoa que está de luto? O que se deve ou não deve dizer e fazer?
A coisa mais importante que alguém pode fazer por uma pessoa em luto é, simplesmente, estar presente. Não é preciso ter as palavras certas – muitas vezes não existem palavras certas. O que conta é a disponibilidade genuína para acompanhar, sem tentar resolver, sem tentar apressar, sem tentar encontrar o lado positivo.
O que ajuda: dizer o nome do falecido em voz alta; perguntar como a pessoa está a sentir-se de verdade; oferecer ajuda concreta e específica (“posso ir às compras contigo amanhã?” em vez de “avisa se precisares de alguma coisa”); e estar presente nos dias difíceis que não são o funeral, as semanas e meses a seguir, quando o mundo já “voltou ao normal” mas a dor continua.
O que não ajuda, e muitas vezes faz mal, ainda que com boa intenção: “ele está num lugar melhor”, “pelo menos não sofreu”, “tens de ser forte pelos filhos”, “já passou tanto tempo, tens de seguir em frente”, “eu sei como te sentes”. Estas frases tendem a invalidar a dor da pessoa, a apressá-la, ou a encerrar a conversa precisamente quando a pessoa mais precisava de a manter aberta.
Qual o pior erro que se pode cometer quando se está de luto?
Isolar-se e silenciar a dor. A investigação é consistente neste ponto: o fator que mais protege as pessoas de um luto complicado é o apoio social percebido, a sensação de não estar sozinho, de ter pessoas disponíveis. Quando uma pessoa em luto se fecha sobre si própria, evita falar, evita pedir ajuda e tenta “aguentar” sozinha, priva-se precisamente do recurso que mais a poderia proteger.
Há um segundo erro igualmente prejudicial, e que muitas vezes acontece por pressão externa: tentar acelerar o processo. Tentar “estar bem” antes de estar, retomar a vida normal antes de estar preparado, ou reprimir a dor para não incomodar os outros. O luto que não é processado não desaparece, manifesta-se mais tarde, muitas vezes de formas que a pessoa não associa à perda: ansiedade, depressão, problemas físicos, dificuldades relacionais.
Reconhecer o luto por um animal de estimação como legítimo não é um excesso sentimental. É uma questão humanidade e de compaixãoO luto por um animal de estimação é ainda desvalorizado. Porque é importante reconhecê-lo?
Porque, para muitas pessoas, um animal de estimação não é “apenas um animal”, é companhia diária, é fonte de conforto, é uma presença estruturante na vida, especialmente para quem vive sozinho, para crianças, para idosos, ou para pessoas que já atravessaram outras perdas. A vinculação que se desenvolve com um animal é real, e a dor da sua perda é igualmente real.
O que torna este luto particularmente difícil é a ausência de reconhecimento social, o que os investigadores chamam de luto não reconhecido ou luto disenfranchised. A pessoa sente uma dor genuína, mas não tem o espaço social para a expressar: não há funeral, não há licença no trabalho, e frequentemente ouve frases como “era só um cão” ou “compras outro”. Este silenciamento não só invalida o sofrimento como o pode agravar, porque a pessoa fica sem a rede de suporte que normalmente ajudaria a integrar a perda.
Reconhecer o luto por um animal de estimação como legítimo não é um excesso sentimental. É uma questão humanidade e de compaixão.
Não se mede o luto em níveis, como se fosse uma competição de sofrimento. Mede-se o risco de complicação, e mesmo aí, a experiência subjetiva de cada pessoa é irredutível a qualquer estatística. A hierarquia do sofrimento é, ela própria, um dos mitos mais prejudiciais que existem no campo do lutoHá quem defenda que há circunstâncias que aumentam o peso do luto — perder um filho de forma repentina é pior do que perder uma avó com 95 anos. Esta avaliação é correta? É possível medir os “níveis” de luto?
Esta é uma das questões mais delicadas desta área. A resposta honesta é: sim, existem fatores que aumentam objetivamente o risco de um luto mais complicado e a investigação identifica-os com clareza.
A morte de um filho, independentemente da idade, está entre os fatores de risco mais robustos para o luto prolongado. A morte inesperada e violenta é, comprovadamente, mais difícil de integrar do que uma morte esperada após uma longa doença. A perda de um cônjuge, de um pai em idade jovem, de uma pessoa com quem se tinha uma relação ambivalente ou conflituosa, tudo isto tende a associar-se a processos de luto mais complexos.
Mas – e este “mas” é fundamental – isso não significa que a dor de quem perde uma avó de 95 anos após uma longa vida partilhada seja menor ou menos legítima. Significa apenas que os fatores de risco são diferentes. Não se mede o luto em níveis, como se fosse uma competição de sofrimento. Mede-se o risco de complicação, e mesmo aí, a experiência subjetiva de cada pessoa é irredutível a qualquer estatística. A hierarquia do sofrimento é, ela própria, um dos mitos mais prejudiciais que existem no campo do luto.
O que gostaria que a sociedade compreendesse melhor sobre quem está a viver um processo de luto?
Que o luto não é uma doença, nem uma fraqueza, nem um problema a resolver. É uma resposta humana profundamente natural à perda de alguém que amávamos, e a intensidade do luto é, em muitos sentidos, um reflexo da profundidade do amor. Não é algo que se “cura” ou que se elimina como se fosse uma gripe. É algo que se integra, que se carrega, que transforma quem somos e que nos convida a construir uma nova forma de estar no mundo, com essa perda como parte da nossa história.
Gostaria também que a sociedade compreendesse que as pessoas em luto não precisam de ser salvas, nem de ouvir as palavras certas, nem de ser animadas. Precisam de ser vistas. Precisam que alguém tolere estar presente na dor, sem tentar fazê-la desaparecer. Esse é, talvez, o maior presente que se pode oferecer a alguém que perdeu.
Nas organizações e no mundo do trabalho, é necessário reconhecer que o luto tem impacto real na capacidade funcional das pessoas, e que políticas de apoio, como licenças adequadas e acesso a acompanhamento psicológico, não são um luxo, são uma necessidadeQue mudanças são necessárias para que o luto deixe de ser um tema tabu?
A mudança tem de acontecer em vários níveis em simultâneo e a base de tudo, como nos diz o modelo de saúde pública que sustenta a própria filosofia da European Grief Conference, é a literacia no luto.
O modelo de saúde pública em que nos baseamos organiza a resposta ao luto em quatro níveis: no topo, os cuidados especializados para quem desenvolve luto prolongado ou perturbações associadas; no nível intermédio, o apoio estruturado para quem apresenta fatores de risco; de seguida, estamos todos nós familiares e amigos, que deverão ser a primeira fonte de apoio, e por fim, na base – a mais ampla, a que chega a toda a população – a educação, a informação e a literacia. É esta base que ainda está, em grande parte, por construir nas nossas sociedades.
Literacia no luto significa que as pessoas comuns, não apenas os profissionais de saúde, têm conhecimento suficiente para reconhecer o luto, para saber o que é normal, para saber quando pedir ajuda, e para saber como apoiar quem está a sofrer nos diferentes níveis de atuação. É exatamente desta área que trata a investigação da Professora Lauren Breen, da Austrália, que teremos o privilégio de receber nesta edição do EGC2026 como uma das vozes mais importantes do mundo neste domínio. O seu trabalho demonstra que investir na literacia do luto ao nível da população tem um impacto real e mensurável na forma como as comunidades atravessam e integram a perda, e é precisamente esse o primeiro passo para que o luto deixe de ser um tema de que nos envergonhamos ou que escondemos.
Nas organizações e no mundo do trabalho, é necessário reconhecer que o luto tem impacto real na capacidade funcional das pessoas, e que políticas de apoio, como licenças adequadas e acesso a acompanhamento psicológico, não são um luxo, são uma necessidade. Na saúde, é urgente que os profissionais estejam mais bem preparados para identificar os fatores de risco e apoiar as situações mais complexas de luto, e apenas encaminhar para apoio especializado as situações de luto prolongado. E na linguagem do dia a dia, precisamos de deixar de tratar o luto como algo embaraçoso, que se resolve em privado e não se menciona em público.
O luto só deixa de ser tabu quando a sociedade tiver as ferramentas para o olhar de frente, e isso começa pela educação.
Mais de uma centena de idosos de Penacova, no distrito de Coimbra, são acompanhados pelo projeto “Estou CãoTigo”, que visa combater a solidão, o isolamento social e processos de luto através de intervenções assistidas por cães.
Lusa | 16:07 – 30/06/2026
Fonte: Notícias ao Minuto
