De Guimarães a Paris: O percurso do criador Tony Miranda na alta-costura

“Acho que nasci com a ideia da costura. Aos seis anos pedalava na máquina da minha mãe e tentava coser. Quando se dá uns pontos e se sente o fascínio que eu senti, ou se investe sem olhar a horas, eu ainda hoje não olho a horas, ou se procura outra vocação. Eu aceitei esta. […]

De Guimarães a Paris: O percurso do criador Tony Miranda na alta-costura
De Guimarães a Paris: O percurso do criador Tony Miranda na alta-costura

“Acho que nasci com a ideia da costura. Aos seis anos pedalava na máquina da minha mãe e tentava coser. Quando se dá uns pontos e se sente o fascínio que eu senti, ou se investe sem olhar a horas, eu ainda hoje não olho a horas, ou se procura outra vocação. Eu aceitei esta. Foi este o meu destino”, diz à Lusa o criador de alta-costura Tony Miranda 

Após cerca de dois anos longe dos desfiles e ainda a recuperar de uma perda de cerca de 40% nas vendas associada ao período da pandemia da Covid-19, Tony Miranda regressa às passereles na quinta-feira em Lisboa com “Herança Couture”, uma coleção de homenagem à mãe e ao pai, uma costureira e um especialista em sapatos feitos à mão que o iniciaram na arte das agulhas em Torrados, no concelho de Felgueiras, onde a “rapaziada da escola” o procurava por causa das calças com fantasia que desenhava.

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“Toda a gente quer ter uma peça, pelo menos uma, diferente, uma peça especial”, conta, enquanto dá a conhecer alguns dos 80 modelos para homem e mulher que vão percorrer os 350 quilómetros que separam o ateliê da rua Mestre Caçoila, em Guimarães, e um dos espaços que tem em Lisboa, na Avenida da Liberdade.

Espírito criativo? “É preciso por mãos na obra”

Critico das gerações de criativos mais jovens, porque “querem fazer tudo muito rápido e pulam etapas”, Tony Miranda descreve a sua profissão como “um trabalho muito sensorial que tem muito a ver com o toque, muito a ver com a visão, muito a ver até com o cheiro”.

“Não basta ter espírito criativo, é preciso por mãos na obra. Cada ponto tem o seu lugar. Para fazer isto é preciso muita vontade, muito esforço, muito trabalho”, refere o criador português que se estreou nos desfiles em Paris na década de 1970.

Na capital francesa, para onde foi aos 16 anos para trabalhar na construção civil, ingressou aos 18 na casa do mestre de alta-costura Joseph Camps, onde riscou e talhou peças ao lado de referências europeias e mundiais.

Em 1967 entrou na casa Ted Lapidus, onde foi diretor da área criativa e de modelismo. Nos 10 anos seguintes foi o responsável pela ‘griffe’ Lapidus, abriu a sua primeira boutique em Paris no número 61 bis Av. Suffrem e, nos anos 80, instalou-se no número 5 da emblemática rue Cambon, onde Coco Chanel abriu o seu primeiro ateliê, tendo regressado a Portugal na década de 80 para abrir um ateliê em pleno centro histórico de Guimarães, cidade onde também outros investimentos turísticos. A compra do espaço em Lisboa, na Avenida da Liberdade, deu-se entre os anos 80 e 90.

Gosto de Lisboa, mas quando estou lá uma semana, já me lembro muito daqui, desta capital verde. Preciso da paz de Guimarães, assim como preciso de ir a Paris a cada passo porque é lá que está o meu oxigénio. Paris está sempre em primeiro”, descreve o criador.

Criou para o Xá da Pérsia, Reza Pahlevi, Jacques Brel, Charles Aznavour ou Brigitte Bardot. Tem clientes na Europa e África e uma presença no Médio Oriente que só se enfraqueceu devido à pandemia: “Vendia muito para lá, para clientes que gostam muito de brilhantes, pedrarias, mas não esperam, encontram logo outros mercados”.

A falta de valorização da alta-costura em Portugal

À Lusa, lamenta que “em Portugal não se saiba valorizar a alta-costura”, conta que teve convites para fazer parte de grandes casas de alta-costura mundial e que só não aceitou porque “quis manter a independência para poder fazer aquilo que quer e gosta”.

“Eu sei que a minha casa não é para todos. Tem que se compreender o mínimo da cultura para saber apreciar (…). Também sei que é muito difícil fazer o nome de uma casa, mas é muito fácil destruí-lo rápido”, refere.

Já sobre o desfile de quinta-feira, o criador que prefere vestir mulheres, conta que “Herança Couture é daquelas coleções com peças para todas as ocasiões”.

Se vai ao seu armário, abre e diz assim: está chuva, está sol, é para o meio-dia, é para a noite, e encontra-se sempre o que se quer“, descreve sobre uma coleção com referências ao relacionamento de culturas, às alterações climáticas, à tradição europeia e aos conflitos mundiais.

Confidenciando que sente saudades antecipadas das peças e que já vendeu algumas e começou a chorar depois por sentir que lhe ficava um vazio, Tony Miranda diz-se “confiante” com o futuro porque “acredita muito no que faz”.

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Fonte: Notícias ao Minuto

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