
Na passada terça-feira, dois meninos de 4 e 5 anos foram abandonados junto à Estrada Nacional 253 (EN253), que liga Alcácer do Sal à Comporta. Ao que por si só já seria uma situação grave, juntou-se um jogo psicológico uma vez que foram deixadas vendadas e com a indicação para procurarem um brinquedo. Entretanto, o casal suspeito do abandono – mãe e padrasto – já foi localizado e detido. Que impacto poderá ter toda esta situação nestas crianças? Por que traumas e desafios poderão vir a passar?
Em entrevista ao Lifestyle ao Minuto, a psicóloga clínica Andreia Filipe Vieira começou por dizer que a situação de abandono pode ser ainda mais traumática quando acontece em idades precoces.
Abandono: O impacto nas crianças
“O abandono de uma criança é uma das experiências mais devastadoras do ponto de vista psíquico. Quando uma criança é deixada para trás, sobretudo em idades precoces, aquilo que é atingido não é apenas a sua segurança física, é o núcleo da confiança humana”, começou por dizer.
“A criança aprende o mundo através do olhar e da presença do outro. Quando esse outro desaparece, ou pior, quando transforma o abandono num jogo psicológico, instala-se uma ferida emocional profunda, muitas vezes silenciosa, mas duradoura”, continuou.
Numa idade mais precoce, a estrutura emocional dos miúdos ainda não está criada e por vezes pode existir o sentimento de culpa. “A criança não interpreta o abandono como uma falha do adulto, interpreta-o como uma falha dela própria. É frequente surgir um sentimento inconsciente de culpa: ‘fui deixada porque não mereço amor’. Esta ideia pode acompanhá-la durante décadas, infiltrando-se nas relações afetivas, na autoestima e na forma como se posiciona no mundo”, explicou Andreia Filipe Vieira.
Crianças vendadas: O jogo psicológico no abandono
Nesta situação que aconteceu em Alcácer, as crianças foram abandonadas vendadas, na posse de uma mochila, e tinha-lhes sido dito para irem procurar um brinquedo. Este jogo psicológico durante o abandono, torna a situação ainda pior para os irmãos.
“Este ato torna a experiência particularmente violenta do ponto de vista emocional. Há aqui uma dimensão de manipulação da confiança. A criança é colocada numa situação de expectativa, curiosidade e dependência, para depois ser confrontada com o vazio e o desaparecimento. Isto não é apenas abandono, é uma quebra brutal do vínculo e da perceção de segurança. O impacto psíquico pode ser comparável ao de experiências traumáticas marcantes porque há humilhação, desorientação e terror emocional”, realçou a psicóloga.
Viver uma experiência como esta pode trazer consequências para o futuro desenvolvimento das crianças. Segundo Andreia Filipe Vieira, “algumas tornam-se extremamente ansiosas, hipervigilantes, com medo constante de perder quem amam”. Por outro lado, existem outros problemas que podem notar-se ao longo do tempo.
Traumas e consequências do abandono
“Outras crianças criam uma espécie de anestesia afetiva: parecem frias, desligadas, incapazes de confiar. Muitas oscilam entre uma dependência extrema e um afastamento emocional absoluto. É comum surgirem dificuldades escolares, alterações do sono, crises de pânico, agressividade, regressões comportamentais e perturbações da vinculação”, revelou a especialista.
Numa situação de abandono em crianças são frequentes os traumas de abandono, rejeição e até, em casos mais graves, o stress pós-traumático. “Algumas crianças passam a viver num estado de alerta permanente, como se o perigo pudesse surgir a qualquer instante. Outras desenvolvem depressões precoces, sentimentos profundos de desvalor ou uma necessidade compulsiva de agradar para evitar serem novamente deixadas”, destacou Andreia Filipe Vieira.
O futuro e o apoio que tem de ser dado
E o que pode acontecer na vida adulta depois de terem passado por uma situação assim? A especialista elucidou. “Na vida adulta, isto pode traduzir-se em relações amorosas instáveis, medo extremo da separação, ciúme patológico, incapacidade de confiar ou até repetição inconsciente de relações abusivas.”
De forma a minimizar este impacto, torna-se importante existir um acompanhamento desde já. “O apoio a estas crianças deve ser imediato, estável e profundamente humano. Não basta garantir alimentação e proteção física. É essencial criar vínculos seguros, previsíveis e afetivamente disponíveis. O acompanhamento psicológico é fundamental, sobretudo através de abordagens que permitam à criança simbolizar o trauma, dar palavras ao medo e reorganizar emocionalmente a experiência vivida.”
Marine e Marc foram detidos em Fátima, dois dias depois de terem abandonado dois meninos, de 4 e 5 anos, em Alcácer. Ambos são franceses e viajaram para Portugal, com as crianças, por razões ainda por apurar. As primeiras informações sobre eles começam a surgir. Eis o que se sabe.
Natacha Nunes Costa | 11:18 – 22/05/2026
Fonte: Notícias ao Minuto