Criança de 5 anos presa nos EUA. “É impossível anular impacto traumático”

Liam Ramos é o menino de 5 anos que foi detido com o pai em Columbia Heights, no norte de Minneapolis, nos Estados Unidos da América, pelo ICE, o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA. Este é o quarto caso de detenção de um menor ligado à comunidade escolar da cidade desde o início […]

Criança de 5 anos presa nos EUA. “É impossível anular impacto traumático”
Criança de 5 anos presa nos EUA. “É impossível anular impacto traumático”


Liam Ramos é o menino de 5 anos que foi detido com o pai em Columbia Heights, no norte de Minneapolis, nos Estados Unidos da América, pelo ICE, o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA. Este é o quarto caso de detenção de um menor ligado à comunidade escolar da cidade desde o início da presidência de Donald Trump, e gerou uma onda de indignação – que precedeu ainda a mais recente morte de Alex Pretti.

A situação do pequeno Liam tem levado a protestos por parte da comunidade escolar. Zena Stenvik, porta-voz do distrito escolar local, questionou, inclusive, se fazia sentido “tratar um menino desta idade como se fosse um criminoso violento”.

A este propósito, o Lifestyle ao Minuto falou com João Coimbra de Almeida, psicólogo e membro da direção da Associação Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica, para perceber o impacto que um episódio como este pode ter na criança e até nos que a rodeiam.

Será sempre impossível anular o impacto traumático, mas poderemos procurar contê-lo e dar-lhe sentido. Será essencial a criança ser exposta à verdade por adultos a quem esteja vinculada afetivamente”, começa por explicar o especialista.

João Coimbra de Almeida esclarece que o trauma da detenção de um menor pode ir além deste próprio ato. “É importante esclarecer que o trauma não se reduz à cena em si, à retirada propriamente dita, mas a tudo o que ela configura, sobretudo a violência da imprevisibilidade e a angústia perante a indefensabilidade.”

  João Coimbra de Almeida é psicólogo e membro da direção da Associação Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica © João Coimbra de Almeida  
Uma criança de 5 anos que é assim detida pode vir a ter algum trauma?

Aos 5 anos ainda temos a criança em fase de construção da confiança e segurança, alojadas inicialmente na figura dos pais, mas expandidas ao ambiente envolvente (seja nos adultos – família, professores, vizinhos, entre outros, seja nas instituições – escola, polícia, etc.). Uma detenção súbita instala a sensação de desamparo e quebra, em simultâneo, a ideia de que o mundo é um sítio onde me posso sentir seguro e que os meus pais me protegem de tudo. Comportamentalmente, podem surgir diversas manifestações desse impacto: medo intenso em se separar das figuras de referência, pesadelos, hipersensibilidade a certos estímulos (barulhos, sustos), estados de hipervigilância e agitação, recusa em ir à escola, comportamentos regressivos, somatizações (dores de barriga, dores de cabeça, sem aparente razão médica). É importante esclarecer que o trauma não se reduz à cena em si, à retirada propriamente dita, mas a tudo o que ela configura, sobretudo a violência da imprevisibilidade e a angústia perante a indefensabilidade.

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Como é que os pais e outras crianças podem ficar ao vê-las a ser detidas?
 
É comum os pais sentirem um conjunto de emoções que vão da impotência absoluta, à vergonha (humilhação), à raiva (que não pode ser mobilizada) e ao medo (de que o desfecho seja o da rutura da relação). Predomina uma sensação generalizada de falha no papel de cuidador/protetor e de culpa perante esta falha (é o colapso, diríamos, da função parental básica), o que poderá afetar a forma como, posteriormente cuidam, interagem e dialogam com os filhos. É comum instalar-se um quadro depressivo nestes pais e agudiza-se, muitas vezes, a possibilidade de uma inscrição traumática na vida familiar (potenciando a transmissão transgeracional deste trauma).

As outras crianças, colocadas no lugar de observadores, poderão sofrer um contágio pelo medo, ou seja, instala-se a ideia de que “se lhe aconteceu a ela, também me pode acontecer a mim” (predomina uma sensação persecutória ou de vigilância constante). É comum assistirmos a um padrão de retraimento: crianças mais caladas, desconfiadas, com medo dos adultos, resistentes à separação das figuras de referência, por vezes até excessivamente obedientes e com receio de chamar demasiado a atenção para si. Podem, inclusive, surgir brincadeiras de índole mais violenta (com temáticas de perseguição, captura, retirada), que poderão ser entendidas como a forma de as crianças elaborarem e darem sentido ao que testemunharam.

Como é que uma criança pode sentir-se numa situação assim?
 
Num cenário de retirada ou detenção, no qual se concretiza uma intensa e violenta intrusão no núcleo mais primitivo da segurança psíquica, a criança deixa de sentir o mundo (e o outro) como seguro. Incapaz de atribuir significado ao que vive e de obter um amparo consolador e organizador, é comum a criança sentir-se confusa, com vergonha, aterrorizada, com culpa (na fantasia de que possa ter feito algo de errado) e, sobretudo, em desamparo.

Será a melhor forma de agir para com uma criança?

Dito de forma simples, não. Mesmo quando existem leis para serem aplicadas, nunca é aceitável (psicologicamente ou emocionalmente) envolver ou colocar uma criança nessa situação. A criança deverá ser sempre resguardada, protegida e retirada de uma situação com elevado potencial traumático. Uma criança não entenderá o que se passa, não tem um aparelho psíquico (defesas internas, estrutura emocional) suficientemente desenvolvido e não possui os conhecimentos necessários para perceber ou dar significado ao que viveu naquele momento.

Como pode uma criança superar uma situação destas? Que estratégias usar?
 
Será sempre impossível anular o impacto traumático, mas poderemos procurar contê-lo e dar-lhe sentido. Será essencial a criança ser exposta à verdade (de forma adequada na complexidade que é capaz de compreender) por adultos a quem esteja vinculada afetivamente. Desculpabilizar, diríamos mesmo, ilibar a criança de qualquer responsabilidade, é fundamental. Procurar garantir alguma estabilidade nas rotinas e horários, embora tolerando e aceitando períodos de regressão que surgirão como inevitáveis (são comuns a necessidade de presença e contacto físico – abraços, dar colo, dormir acompanhada). Teremos de dar espaço, tempo e oportunidades para a criança ir comunicando as formas como viveu e sentiu o que se passou, sem procurar evitar ou corrigir emoções intensas (tristeza, medo, zanga). Sempre que possível, procurar ajuda especializada que garanta a continuidade da elaboração do trauma e o reforço da segurança (interna – de si mesma, e externa – confiança no outro).

Sente que à medida que envelhece o tempo começa a passar mais rápido do que é normal? Um professor e psicólogo de Stanford explica a origem deste fenómeno e apresenta métodos para desacelerar a vida.

Inês Morais Monteiro | 21:00 – 24/01/2026



Fonte: Notícias ao Minuto

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