
“Começo a ficar inquieta com a facilidade com que hoje se colocam rótulos nas mães.
Há uma palavra para tudo. Uma explicação rápida que encaixa comportamentos complexos em categorias simples. E é verdade, isso às vezes alivia. Dá a sensação de que compreendemos. Mas há um ponto em que o rótulo deixa de ajudar e começa a substituir a história.
Um processo terapêutico, antes ou depois de ser mãe, pode fazer diferença. Traz consciência, ajuda a interromper padrões, dá nome ao que pesa. Mas inquieta-me a ideia de que se deveria chegar à maternidade “resolvida”. Como se fosse possível entrar nesse lugar sem falhas, sem contradições.
A maternidade não é um lugar de chegada. É um lugar de revelação.
E o que ela revela raramente é linear. Revela a história que cada mulher traz, faltas, excessos, medos, limites reais. Não há mãe sem contexto.
Claro que há situações patológicas que impactam uma infância e uma vida inteira. Essas não podem ser ignoradas nem suavizadas. Muitas vezes ocupam lugares clandestinos, difíceis de nomear, mas profundamente presentes.
Ainda assim, tornámo-nos rápidos a rotular. Tóxica, narcisista, ausente. Palavras pesadas que dão a ilusão de compreensão, mas que muitas vezes reduzem mais do que explicam.
Porque uma mãe não é só o seu pior momento.
E as mães não precisam de advogadas de defesa, nem de absolvição automática. O que talvez precisem é de um olhar que aguente a complexidade. Que reconheça o impacto sem apagar a história, que não desculpe tudo, mas que também não reduza tudo.
Porque é um dos poucos lugares onde não há substituição possível e, ao mesmo tempo, onde a margem para errar parece mínima.
Se controla demasiado, é ansiosa.
Se se esquece, é negligente.
Se trabalha, é ausente.
Não há forma de existir que escape ao julgamento.
E no meio disto instala-se uma culpa silenciosa, não só pelo que se faz, mas pelo que se é.
Talvez não falte linguagem. Talvez falte espaço.
Espaço para ver mães como pessoas inteiras.
Não perfeitas. Não resumidas. Inteiras.
Coitadas das mães pode soar a vitimização. Mas talvez seja só isto. Reconhecer que se espera delas algo profundamente humano, enquanto se exige, muitas vezes, o impossível.”
Fonte: Notícias ao Minuto