
Recentemente, um recém-nascido deu entrada no serviço de urgência do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, “quase morto”, na sequência de um parto domiciliar. A notícia foi avançada pelo Expresso, na semana passada, adiantando o semanário que “a mãe tinha indução marcada por ser uma grávida de risco e faltou”. O bebé viria mesmo a morrer e os médicos daquela unidade hospitalar denunciaram o caso às autoridades competentes.
Segundo o Expresso, o bebé chegou ao hospital “com encefalopatia hipóxico-isquémica grave”, um termo médico que explica uma asfixia durante o parto. A mãe, identifcada como doula – assistente que dá suporte físico e emocional a grávidas durante a gravidez, parto e pós-parto – “corria riscos devido a duas cesarianas anteriores”, mas optou por fazer este terceiro parto em casa, assistido por uma enfermeira-parteira. A mulher seria ainda acompanhada no privado por uma médica obstetra que já terá sido alvo de queixas na Ordem dos Médicos.
Contactados pelo Notícias ao Minuto, “os serviços da Unidade Local de Saúde de Santa Maria envolvidos na resposta materno-infantil” fazem saber que “têm registado, desde 2023, um caso por ano de complicações decorrentes de partos realizados em casa”. “Até à data, foi registado um óbito e são de assinalar sequelas em metade desses casos que tiveram de ser internados na Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais do Hospital de Santa Maria por questões neurológicas, assim como a deteção de outros problemas no pós-parto”, pode ainda ler-se numa resposta escrita. “Sempre que envolvam profissionais de saúde e haja suspeita de má prática durante o processo que conduz ao parto, essas situações são reportadas às entidades competentes”, rematam, por fim.
Ora, para perceber o que poderá estar em causa durante um parto domiciliar e os riscos associados, o Notícias ao Minuto falou com Joana Gato, médica interna do 6.º ano em Ginecologia e Obstetrícia do Royal College of Obstetricians and Gynaecologists, e com Andrea Guerreiro, uma doula com experiência em partos.
A médica começa por elucidar que “o principal risco do parto normal após cesariana é a possibilidade de ruptura uterina, ou seja, o útero abrir na zona da cicatriz”, o que pode ser tão fatal para o bebé quanto para a mãe, sobretudo “se a intervenção não for atempada”.
Joana Gato refere que, após duas cesarianas prévias, a maior parte dos obstetras “recomenda que o terceiro parto seja cesariana, mas a escolha é da mulher”. No entanto, quando a mulher privilegia o parto vaginal, “nestas condições, o mais seguro é que o faça num hospital“. Sublinha ainda a médica a importância de “perceber que existem alguns tipos de cesariana que posteriormente contraindicam a tentativa de parto vaginal”, sendo que “em Portugal, são poucas as maternidades que aceitam uma tentativa de parto vaginal após duas cesarianas”.
A especialista relaciona a recusa hospitalar deste caso, e não só, com a crescente procura das grávidas por partos em casa, mesmo sabendo que contarão com um “apoio mínimo”.
Joana Gato sugere ainda que apesar de a grávida deste caso ser uma doula, “a profissão de uma pessoa não retira risco de complicações, já que a grande maioria está completamente fora do seu controlo, muito mais num momento tão vulnerável como é o trabalho de parto”.
O que faz com que mulheres optem por partos em casa?
Nos últimos sete anos, 1.207 grávidas decidiram ter os filhos fora do hospital, com base num cálculo da Associação Portuguesa dos Enfermeiros Obstetras, sendo que, dessas, 220 (18,39%) acabaram por ser transferidas para uma urgência, sobretudo durante a fase ativa do parto (71,62%), devido a complicações.
Em reação aos dados avançados pelo semanário Expresso, a ministra da Saúde, Ana Paula Martins alertou para perigos dos partos “feitos em condições caseiras”.
Mas mesmo conscientes dos riscos acrescidos, muitas mulheres continuam a priorizar um ambiente domiciliar em detrimento do ambiente hospitalar. Para Joana Gato, esta decisão prende-se, geralmente, com traumas relacionados com experiências de partos hospitalares.
Por forma a diminuir os riscos das mulheres que optam por partos em casa para fugir a eventuais negligências hospitalares, a especialista em obstetrícia defende que é urgente “sentarmo-nos todos à mesa com abertura, franqueza, e sem julgamentos, para refletirmos sobre o que podemos fazer de diferente pelas mulheres no nosso país”.
Mencionado a possibilidade de “um protocolo de parto domiciliar regulado em Portugal”, Joana Gato acredita que o mais urgente é “ouvir as vozes das próprias mulheres”.
Por sua vez, a doula Andrea Guerreiro salvaguarda que mesmo com o conhecimento de incidentes como o caso da morte deste bebé, “o parto domiciliar não vai acabar, mas pode ser regulamentado”, da mesma forma que “as doulas não vão desaparecer, mas a sua atuação pode ser regulamentada. Os profissionais que trabalham nos hospitais podem abrir-se ainda mais ao diálogo com as famílias e compreender as suas preocupações e dúvidas”, reforça, enfatizando que “esse é o caminho”.
Como é que as doulas atuam durante o parto?
Embora o conceito de doula seja associado a condições mais humanizadas, Andrea Guerreiro, que é também consultora de lactação IBCLC (consultora de lactação certificada internacionalmente), esclarece que “as doulas não empurram as mulheres para o parto domiciliar, nem têm interesse que as suas clientes estejam a parir num ambiente em que não se sentem seguras”.
O que estas profissionais de parto fazem é “apresentar opções e algumas delas são desconhecidas da maioria das pessoas, porque não lhes são apresentadas noutros locais“. Andrea Guerreiro indica que uma dessas opções é o parto domiciliar planeado e assistido por EESMO (enfermeiros especialistas em saúde materna e obstétrica). “No exercício da minha atividade de doula escolho só acompanhar partos no domicílio se tiverem sido planeados para acontecer em casa e se forem assistidos por profissionais de saúde tecnicamente competentes e legalmente habilitados para o efeito”, refere.
Mais do que assistir ao parto, uma doula distingue-se de um acompanhante não profissional, como um pai ou uma amiga, por acompanhar o parto “e cuidar do bem-estar físico e emocional da mulher de forma isenta, calma e confiante”, ao mesmo tempo em que é acompanhada por enfermeiros que “monitorizam o bem-estar da mãe e do bebé” e tomam as decisões necessárias.
Os riscos e os benefícios de um parto domiciliar
Sendo o espaço familiar um “ambiente com menos recursos materiais e humanos para uma intervenção atempada em caso de emergência, as complicações possíveis em qualquer trabalho de parto são inúmeras e impossíveis de listar. Mas sabemos que a probabilidade de estas acontecerem está diretamente associada ao risco basal da gravidez”, aponta Joana Gato.
Apesar dos riscos não poderem ser descartados, de acordo com esta especialista em obstetrícia, também há vantagens neste tipo de parto que, já é uma possibilidade comum e segura em muitos países, como é o caso do Reino Unido, onde Joana Gato exerce atividade.
As vantagens sugeridas por Joana Gato:
- Menor intervenção na fisiologia do trabalho de parto;
- Maior privacidade e familiaridade, que traz conforto e segurança psicológica a muitas gravidas;
- Maior liberdade de movimentos e possibilidade de ter presente mais pessoas para apoio emocional do que no hospital, onde os números são limitados;
- Poderá também estar associado a maior sucesso no início e manutenção da amamentação.
As vantagens sugeridas por Andrea Guerreiro:
- Respeito pela autonomia da mulher, fisiologia do parto e tempo do bebé;
- Proteção do bebé no pós-parto imediato, com adiamento de intervenções não urgentes;
- Separação zero e promoção da amamentação;
- Possibilidade de terem mais do que um acompanhante em simultâneo;
- Não terem de se deslocar até ao hospital em trabalho de parto ou de aí permanecerem internadas após o parto (muitas vezes em quartos partilhados e sem a presença de acompanhante;
- Escolha da equipa que vai assistir ao parto – versus a imprevisibilidade de não saber que hospital estará aberto no dia do parto ou para onde será referenciada pela linha SNS Grávida;
- O conforto de estarem na sua casa.
Que fatores precisam de ser considerados no momento de decidir fazer o parto em casa?
“As equipas de enfermagem que assistem partos em casa avaliam o risco individual e decidem ou não assistir no domicílio”, adianta Andrea Guerreiro.
No entanto, antes de ponderar essa possibilidade, Joana Gato explica que há recomendações feitas à grávida durante as consultas de acompanhamento: “A avaliação inicial tem em conta a história clínica da grávida, problemas de saúde já conhecidos, a avaliação das análises de sangue e ecografias, pressão arterial e despiste de pré-eclâmpsia; conhecimento de gravidezes anteriores e como correram os respectivos partos. Ao longo da gravidez podem surgir novas patologias ou complicações, que vão alterar o nível de risco. É por isso uma avaliação continuada, e não um momento isolado no tempo”.
E mesmo quando estão as condições reunidas para um parto em casa, ainda que cientes dos riscos, “também há uma preocupação de garantir que há um hospital com urgência em funcionamento próximo do domicílio onde vai ocorrer o parto“, concretiza a doula.
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Fonte: Notícias ao Minuto
