
Mafalda Rodrigues e Mariana Caldeira conheceram-se em consulta, com Mafalda, que é atriz, a partilhar traumas que há muito carregava, e Mariana, psicóloga, a ouvir e a apontar novos caminhos através do seu olhar clínico.
Após algum tempo, a relação entre paciente e terapeuta desenvolveu-se e transformou-se num laço que as levou a querer desatar os ‘nós’ que outros carregavam.
Há cerca de três anos, em novembro de 2023, ganharam coragem e lançaram o podcast (im)perfeita mente, onde se fala de terapia e feridas emocionais, de uma forma despojada e genuína.
O sucesso foi tanto que decidiram agora lançar um livro inspirado nessas conversas: “Sobreviver a dias imperfeitos”.
A obra, editada pela Contraponto, reproduz o espaço seguro de um consultório e muitos dos desafios com que lidamos. Dos traumas de infância à imperfeição das relações familiares, passando pelo burnout parental, pelo peso da culpa e pela falta de autoestima, assim como pela síndrome do impostor e a procura da identidade, os temas abordados por Mafalda e Mariana são diversos mas têm um ponto em comum: são o reflexo da maioria dos leitores.
O livro traz ainda dicas para superar a frustração, as recaídas e os obstáculos com que nos deparamos e que nos impossibilitam, tantas vezes, de seguir em frente.
O Notícias ao Minuto esteve à conversa com as autoras para perceber de que forma a leitura deste livro pode ajudar-nos “a viver os dias imperfeitos da melhor maneira possível”.
Mais do que ajudar a sobreviver, o vosso livro, como dizem, é sobre viver os dias imperfeitos da melhor maneira possível. Mas isso não é fácil, como podemos conseguir fazê-lo?
Mafalda: Fazer terapia é o primeiro passo, o salto de fé e coragem que nos vai permitir conhecermo-nos melhor (e aos outros), e esse foi o início do meu processo. Já tinha alguma consciência dos meus gatilhos, mas só com a terapia consegui cuidar dessas feridas. Como dizemos no livro, a infância não fica no passado, acompanha-nos pela vida fora. E, muitas vezes, na vida adulta, temos reações que não são apenas sobre o presente, mas respostas internas a experiências que vivemos nessa altura. O mesmo acontece nas relações. Por vezes, mantemo-nos em relações que não nos preenchem, porque procuramos – de forma inconsciente – padrões que nos são familiares. E aquilo que é familiar nem sempre é aquilo que é saudável, simplesmente é o que nos é mais confortável, porque é o que conhecemos desde sempre. Ao enfrentarmos essas nossas feridas, temos a possibilidade de fazer diferente do que fizeram connosco.
Viver implica não estar sempre bem e não sermos sempre produtivos. Na verdade, descansar e parar não são o oposto de produzir, são parte essencial dissoVivemos numa época em que há muita pressão para estarmos sempre bem. Isso obriga-nos a entrar em modo sobrevivência em vez de viver?
Mariana: Sim, muitas vezes obriga. Existe uma pressão constante para parecermos bem, felizes, produtivos, como se não houvesse espaço para falhar ou para estar em baixo. Quando sentimos que temos de corresponder ao que a sociedade espera de nós, deixamos de viver e ligamos o piloto automático. E, então, em vez de sentir, tentamos controlar, em vez de parar, continuamos, em vez de pedir ajuda, fingimos que está tudo bem. Mas viver implica não estar sempre bem e não sermos sempre produtivos. Na verdade, descansar e parar não são o oposto de produzir, são parte essencial disso. É nesse espaço que o corpo recupera, que a mente organiza e que conseguimos voltar a nós próprios.
Por que razão acham que temos tanto medo de assumir que não somos perfeitos e que temos dias imperfeitos?
Mafalda: Porque parece que o que esperam de nós é mesmo isso, a perfeição em pessoa: a mãe perfeita, a trabalhadora perfeita, a dona de casa perfeita. Esse estigma social que nos vem acompanhando e que é difícil de romper, que estejamos a 100% em tudo e que tanta carga mental nos traz, principalmente a nós, mulheres. E é no dia em que admitimos – “isto está a ser demais para mim” – que pode começar a mudança, de admitirmos que precisamos de ajuda. Fomos ensinados que o ato de pedir ajuda vem como fraqueza e que, por isso, devemos evitar.
Nas redes sociais vemos muitas vezes uma “positividade tóxica”. O vosso projeto é um antídoto para isso? Como evitar cair no extremo oposto do pessimismo?
Mariana: Nas redes sociais existe muitas vezes uma pressão silenciosa para mostrar que está tudo bem. Esta “positividade” pode tornar-se tóxica quando invalida emoções reais e cria a sensação de que há algo de errado connosco por não estarmos sempre bem. O nosso projeto procura abrir espaço à autenticidade, ao desconforto e às emoções difíceis, sem filtros nem máscaras. Ainda assim, há um cuidado importante em não cair no extremo oposto, porque nem tudo é negativo. A saúde emocional não passa por escolher entre ser positivo ou negativo, mas por conseguirmos ser verdadeiros connosco próprios, com tudo o que isso implica. Para terminar, as comparações nas redes sociais podem ativar feridas antigas de infância. Quando crescemos num ambiente onde somos constantemente comparados, torna-se mais difícil lembrar que o que vemos online é apenas uma vitrine, uma seleção cuidada daquilo que cada pessoa escolhe mostrar. É importante reconhecer que as redes sociais não refletem a totalidade da vida de ninguém e que o caminho de cada pessoa é único. As escolhas dos outros não têm de ser as nossas escolhas, nem o seu tempo o nosso tempo.
Os livros de autoajuda focam-se muito no “vencer” ou “superar”. Mas vocês falam em “sobreviver”. Porquê? É uma forma de validar o facto de, às vezes, aguentar o dia já ser uma vitória?
Mafalda: Sem dúvida. Porque muitas vezes não estamos a ultrapassar, nem a resolver… estamos a tentar sobreviver. E reconhecer isso já é, em si, um passo importante. Este livro é um convite que fazemos aos leitores, a olharem para dentro e a validarem aquilo que sentiram/ sentem.
No livro, abordam a ideia de que a perfeição é uma ilusão. Qual é o maior perigo de tentarmos ser “perfeitos” para quem nos rodeia?
Mariana: Quando tentamos ser “perfeitos” para quem nos rodeia, começamos por ajustar pequenos comportamentos para sermos aceites. Vamos deixando de fora emoções, necessidades e até opiniões, porque tudo o que não encaixa nessa imagem “ideal” parece arriscado. Isso cria uma espécie de vida em esforço constante, onde o valor pessoal passa a depender da validação externa. E aí surge um desgaste emocional significativo, ansiedade, medo de errar, dificuldade em colocar limites e, muitas vezes, relações menos autênticas, porque o foco deixa de estar na ligação e passa a estar no desempenho. No fundo, a tentativa de perfeição pode afastar-nos justamente do que mais procuramos, sentir-nos vistos e aceites tal como somos.
Num dia imperfeito, os primeiros pensamentos costumam ser automáticos, a autocrítica, a ideia de que devíamos estar a ser diferentes. O trabalho mais importante é interromper essa narrativa antes que ela se transforme em culpa. Mas, para chegar até aí, precisamos também de compreender de onde vêm as nossas feridas e os nossos gatilhosEm “Sobreviver a Dias Imperfeitos” falam sobre aceitar que os dias maus fazem parte do processo. Como é que ensinamos o nosso cérebro a não se culpar por não estar a ser produtivo num dia imperfeito?
Mariana: Não se trata tanto de “ensinar o cérebro”, como se fosse uma instrução simples, mas sim de ir criando novas associações ao longo do tempo, porque o cérebro aprende muito pela repetição e pela forma como interpretamos o que sentimos. Num dia imperfeito, os primeiros pensamentos costumam ser automáticos, a autocrítica, a ideia de que devíamos estar a produzir mais ou a ser diferentes. O trabalho mais importante é interromper essa narrativa antes que ela se transforme em culpa. Mas, para chegar até aí, precisamos também de compreender de onde vêm as nossas feridas e os nossos gatilhos. Será que ouvimos demasiadas vezes que éramos preguiçosos? Será que aprendemos, desde cedo, a associar produtividade a valor? Como se o nosso valor enquanto pessoas dependesse diretamente daquilo que produzimos e do nosso desempenho. Só a partir daqui é que começamos a conseguir dar instruções diferentes ao nosso cérebro e a reconstruir a forma como nos falamos internamente.
Como conseguiram juntar e equilibrar os conceitos teóricos da psicologia da Mariana e as partilhas mais viscerais da Mafalda?
Mafalda: Foi um equilíbrio muito natural, como já vamos fazendo no podcast. Eu trago toda experiência vivida, com toda a emoção que isso implica, e a Mariana procura enquadrar, dar sentido e ajudar a compreender. O desafio foi exatamente esse: criar identificação e proximidade com quem nos lê, sem simplificar aquilo que é complexo. Acreditamos que este não é só mais um livro de psicologia, e é esta dinâmica que o torna único.
Como foi o processo de escrita a quatro mãos? Houve algum capítulo que tenha sido particularmente difícil de conciliar a visão clínica e a visão artística?
Mafalda: O ponto de partida foi a minha partilha e, através dela, a Mariana analisa, desmistifica e clarifica comportamentos, pensamentos e ações. Há capítulos sensíveis que foram mais difíceis de partilhar, mas a escrita fluiu sempre de uma forma natural porque já tínhamos esta dinâmica que funciona muito bem no podcast e acabamos por nos conhecer bem uma à outra.
O podcast (im) perfeita mente, de que fala e que assinam as duas, tem um tom muito próximo e orgânico. Como é que decidem até onde querem ir e o que não querem expor?
Mafalda: Acreditamos que a partilha de experiências pode ter um efeito terapêutico para quem nos ouve. Os episódios são pensados de forma a respeitar a minha história, e acabo por partilhar aquilo que dentro de mim acho válido partilhar, sem pressão. Claro que há um ou outro episódio em que tivemos de ter mais cuidado porque são temas mais frágeis, mas só vamos até onde nos sentimos confortáveis. Os ouvintes são a peça chave aqui, porque muitas vezes é através das sugestões deles que acabamos por decidir o que vamos falar semanalmente. O que sentimos é que as pessoas estão sedentas de que se fale sobre relações e quase sentimos um despertar coletivo para estas questões de saúde mental, o que faz com que o nosso podcast e livro ganhem aqui o seu propósito real.
Uma das ferramentas mais importantes é a capacidade de reconhecer que dias imperfeitos não são exceções ao processo, fazem parte dele Podcasts como o vosso e livros como “Sobreviver a dias imperfeitos” ajudam a ‘democratizar’ o acesso à saúde mental? A desconstruir mitos e tabus sobre a terapia?
Mariana: Sim, podem ter esse efeito, e de forma bastante significativa. Quando falamos de saúde mental em formatos mais acessíveis como podcasts ou livros, estamos a tirar o tema do espaço mais clínico ou reservado e a levá-lo para o quotidiano das pessoas. Isso ajuda a normalizar experiências que muitas vezes são vividas em silêncio, como ansiedade, culpa, relações difíceis ou padrões repetidos ao longo da vida. Este tipo de conteúdos contribui para ‘democratizar’ o acesso à saúde mental no sentido em que amplia a literacia emocional. Nem toda a gente tem contacto imediato com a terapia, mas pode ter contacto com ideias que validam o que sente, que dão sentido ao que vivem e que ajudam a reconhecer padrões que antes não eram nomeados. Ao mesmo tempo, ajudam a desconstruir alguns mitos, por exemplo a ideia de que fazer terapia é apenas para quem ‘tem problemas graves’, ou que pedir ajuda é sinal de fraqueza. Ainda assim, é importante reforçar que estes formatos não substituem a terapia, mas podem funcionar como portas de entrada.
Que ferramenta esperam que os leitores levem do livro para enfrentar o seu próximo dia imperfeito?
Mariana: Uma das ferramentas mais importantes é a capacidade de reconhecer que dias imperfeitos não são exceções ao processo, fazem parte dele. Isso muda profundamente a forma como nos relacionamos connosco próprios, porque reduz a urgência de “corrigir” o dia e aumenta a capacidade e a coragem de o viver.
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Fonte: Notícias ao Minuto