Altos e baixos – Vamos falar de Perturbação Bipolar com verdade e empatia

«Há dias que existem para lembrar, mas, muitos desses dias são oportunidades para reparar. O Dia Mundial da Perturbação Bipolar, assinalado a 30 de março, é um desses dias: um convite coletivo para olhar com mais verdade, menos medo e menos preconceito para uma condição frequentemente mal compreendida. A data é assinalada internacionalmente como iniciativa […]

Altos e baixos – Vamos falar de Perturbação Bipolar com verdade e empatia
Altos e baixos – Vamos falar de Perturbação Bipolar com verdade e empatia


«Há dias que existem para lembrar, mas, muitos desses dias são oportunidades para reparar. O Dia Mundial da Perturbação Bipolar, assinalado a 30 de março, é um desses dias: um convite coletivo para olhar com mais verdade, menos medo e menos preconceito para uma condição frequentemente mal compreendida.

A data é assinalada internacionalmente como iniciativa de sensibilização global, com o objetivo de aumentar a literacia e reduzir o estigma. 

Falar de perturbação bipolar não é falar de “mudanças de humor” no sentido comum da expressão.

É falar de uma condição de saúde mental real, complexa, que pode ter impacto profundo no humor, energia, sono, funcionamento e relação com a vida. Com cuidados adequados, é possível recuperar, viver com mais estabilidade e construir uma vida com sentido. 

Este dia importa porque ainda há demasiadas pessoas e famílias a sofrer em silêncio não apenas pelos sintomas, mas também pelo peso do julgamento.

© Ana Fidalgo  

Desmistificar: o que a perturbação bipolar não é

Um dos maiores obstáculos ao cuidado é a confusão. 

A perturbação bipolar é muitas vezes usada, de forma errada, como rótulo para qualquer pessoa “instável”, “intensa” ou “imprevisível”. Esta simplificação não só é injusta, como atrasa o reconhecimento e o tratamento.

Alguns mitos frequentes (e por que importa corrigi-los)

“Toda a gente tem um bocadinho de bipolaridade.” 

Não. Oscilações emocionais fazem parte da vida humana. A perturbação bipolar envolve episódios de humor com intensidade, duração e impacto clínico que vão muito além das variações normais. 

“É só uma questão de força de vontade.”

Não. Não se resolve com “disciplina”, “pensamento positivo” ou “ter juízo”. Exige avaliação clínica, tratamento adequado e suporte continuado. 

“Quem tem perturbação bipolar nunca consegue ter uma vida estável.”

Também não. Muitas pessoas, com acompanhamento e tratamento, conseguem trabalhar, amar, criar família, desenvolver projetos e viver com qualidade. O percurso pode exigir ajustamentos, mas não anula dignidade, capacidade ou futuro. 

Compreender sem romantizar e acolher sem reduzir

A perturbação bipolar tem sido, por vezes, romantizada (associada a “genialidade”, criatividade ou intensidade emocional) e, noutras vezes, demonizada. Nenhum destes extremos ajuda.

Romantizar pode invisibilizar sofrimento real.
Demonizar pode aumentar vergonha e isolamento.

Como em todos os tipos de perturbação, precisamos de um olhar que aceite a sua maior complexidade, que reconhece o espectro e a nuance da experiência humana sem transformar a pessoa num diagnóstico.

A pessoa não é a perturbação.
A pessoa vive com uma perturbação e continua a ser muito mais do que isso.

Tratamento: um caminho de estabilização e não uma “cura instantânea”

A boa notícia é que há tratamento eficaz.

As recomendações clínicas internacionais apontam para uma abordagem integrada, que geralmente combina:

  • Medicação (muitas vezes essencial, sobretudo em fases agudas e/ou na prevenção de recaídas);
  • Intervenções psicológicas;
  • Apoio psicossocial;
  • Acompanhamento continuado e plano de prevenção de recaídas. 

Os medicamentos podem ser essenciais, mas, por si só, muitas vezes não são suficientes para uma recuperação completa, o que reforça a importância do acompanhamento psicológico e do contexto relacional. 

O papel do apoio psicológico (e porque faz diferença)

O apoio psicológico não serve apenas para “falar sobre sentimentos”. Serve para criar ferramentas, compreensão e segurança.

Pode ajudar a pessoa a:

  • Reconhecer sinais precoces de desregulação (ex.: alterações de sono, energia, aceleração, irritabilidade, retraimento);
  • Compreender padrões pessoais e gatilhos;
  • Trabalhar adesão ao tratamento sem culpa;
  • Reconstruir rotinas protetoras (sono, ritmo, autocuidado, limites);
  • Lidar com impacto relacional e profissional;
  • Processar vergonha, medo, luto e autoimagem após episódios;
  • Fortalecer a rede de apoio e a comunicação com familiares/cuidadores.

Neste sentido é muito importante reconhecer que o pedido de apoio é um ato de coragem e responsabilidade consigo e com os outros.

Apoiar alguém com perturbação bipolar

Quando alguém de quem gostamos está em sofrimento, é comum querermos “resolver”. Mas, muitas vezes, o mais terapêutico não é controlar, é acompanhar com presença e discernimento.

O que tende a ajudar:

  • Informar-se sobre a perturbação por fontes credíveis;
  • Escutar sem ridicularizar nem minimizar;
  • Evitar discussões moralistas (“tu és assim porque queres”);
  • Incentivar ajuda profissional com delicadeza e firmeza;
  • Apoiar rotinas protetoras, sobretudo sono e organização;
  • Ter um plano para momentos de maior risco/descompensação (com contactos e passos definidos).

Um psicólogo/a especializado, bem como entidades reconhecidas (Ex. Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares) podem ser uma fonte de ajuda e facilitação nestes passos.

O que tende a piorar:

  • Usar o diagnóstico como arma em conflitos;
  • Confundir a pessoa com o sintoma;
  • Exigir “normalidade” imediata;
  • Interpretar tudo como manipulação;
  • Desaparecer quando o desconforto aumenta.
  • Apoiar não é anular limites.

Também é legítimo (e pode ser essencial!) que familiares e parceiros precisem de orientação, psicoeducação e espaço terapêutico para si.

Quando procurar ajuda

Se existem períodos de alterações marcadas de humor/energia, mudanças significativas no sono, fases de grande aceleração ou irritabilidade, impulsividade, ou períodos depressivos importantes com impacto no funcionamento, faz sentido procurar avaliação profissional qualificada.

Se houver sinais de crise, risco de autoagressão ou suicídio, a prioridade é procurar ajuda urgente (serviços de urgência / linhas de apoio em crise / contacto com profissionais de referência). O risco pode aumentar em perturbações do humor, e levar isto a sério é uma forma de cuidado, não é um alarmismo.

Neste Dia Mundial da Perturbação Bipolar

Talvez o gesto mais importante não seja “dizer a coisa certa”.
Talvez seja criar condições para que alguém não tenha de esconder aquilo que está a viver.

Sensibilizar é isto: Trocar estigma por informação, julgamento por curiosidade, distância por presença, silêncio por cuidado.

A saúde mental ultrapassa aquilo que é feito em consultório.
Cuida-se também na linguagem, nas relações, nas instituições, no modo como olhamos para quem está a lutar.

E, às vezes, começa com algo simples e humano: acreditar que a pessoa merece ajuda e que pode viver melhor com ela.»

Referências 

World Bipolar Day / ISBD (iniciativa e data de 30 de março). 
Organização Mundial da Saúde (OMS), fact sheet sobre perturbação bipolar (tratamento, recuperação, dignidade e decisão partilhada). 
NICE Guideline CG185 — Bipolar disorder: assessment and management (avaliação e tratamento). 
NHS / NIMH (informação clínica geral e apoio). 



Fonte: Notícias ao Minuto

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