
O primeiro jogo do Campeonato do Mundo de Futebol no passado dia 11 de junho colocou frente a frente as seleções do México e da África do Sul. Pode não ter dado conta, mas Portugal também esteve representado. O espetáculo da cerimónia de abertura no Estádio Azteca, na Cidade do México, teve direito a uma taça gigante de 10 metros feita por uma empresa nacional, a Air Designers, com sede em Vila Nova de Gaia. A peça foi criada em segredo desde fevereiro. O Lifestyle ao Minuto falou com Paloma Perrone, diretora de projetos da empresa, para saber tudo.
“A primeira fase envolveu todo o estudo do conceito, da engenharia e da forma como poderíamos transformar a ideia artística numa peça tecnicamente viável e segura. Depois de encontrarmos as soluções necessárias e de definirmos todos os detalhes técnicos, a fase de produção propriamente dita durou cerca de dois meses”, explica Paloma Perrone.
Como foi criada a taça gigante
Além dos 10 metros de altura, a organização deixou à empresa nacional um conjunto de indicações que teriam de ser cumpridas. Afinal, tratava-se de uma peça que iria ser vista por milhões de pessoas em todo o mundo.
“Não tivemos total liberdade, porque existiam muitos requisitos e condicionantes que tinham de ser rigorosamente cumpridos. A peça tinha de respeitar uma estética muito específica, mas, ao mesmo tempo, precisava de cumprir várias exigências técnicas relacionadas com o movimento, o peso, a segurança, a transparência dos materiais, o tempo de insuflação e a forma como iria surgir durante a cerimónia”, revela a diretora de projetos da Air Designers.
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Tais exigências tiveram impacto na escolha dos materiais desta taça que recria o troféu que é entregue à seleção vencedora do Campeonato do Mundo, bem como nas técnicas utilizadas, algumas até novas para a empresa.
“Cada detalhe teve de ser pensado e testado ao milímetro. Foi um trabalho extremamente exigente, tanto do ponto de vista técnico como artístico, mas foi também isso que tornou o resultado tão especial. Trabalhámos com licra, PVC, redes transparentes de poliéster, malhas e outros materiais técnicos. A combinação destes elementos permitiu-nos alcançar o efeito artístico pretendido e, ao mesmo tempo, resolver todas as necessidades estruturais e técnicas da peça.”
Se viu a cerimónia pode não ter conseguido reparar em todos os detalhes que os responsáveis quiseram transmitir, mas Paloma Perrone explica tudo. “Um dos objetivos era criar uma certa transparência. Nas imagens transmitidas pela televisão quase não se percebe, mas, quando observamos a peça de perto, vemos que o troféu é semitransparente. Esse efeito fazia com que a peça remetesse para a tradição artística mexicana do papel picado, criando uma ligação visual muito bonita com a cultura do país anfitrião.”
Os testes e a emoção no resultado final
Durante a apresentação, tudo foi perfeito e a taça insuflou em pouco mais de 10 segundos. Chegar a este tempo e ter tudo coordenado com a coreografia e música escolhidas foi um processo que envolveu muitos testes, primeiro em Portugal e depois no próprio estádio da Cidade do México.
“Os primeiros testes foram realizados nas nossas instalações, onde verificámos todos os componentes, a estrutura, o comportamento dos materiais e o sistema de insuflação. A peça seguiu para um armazém de ensaios, onde foram realizados novos testes em conjunto com o nosso cliente e com as restantes equipas envolvidas na cerimónia. Por fim, fizemos os ensaios no próprio local do evento.”
Neste tipo de projetos, o secretismo faz sempre parte e nesta fase de teste nunca podia ser divulgada qualquer imagem. “Durante todo o processo, não podíamos divulgar o que estávamos a produzir, mostrar imagens ou partilhar qualquer informação relacionada com a peça. O segredo faz parte do impacto da cerimónia. Milhões de pessoas têm de descobrir aquele elemento apenas no momento em que ele surge em palco. Por isso, toda a equipa teve de respeitar rigorosamente os compromissos de confidencialidade até à apresentação oficial.”
Os testes no palco final acabam por ser fundamentais, como explica Paloma Perrone. “Essa última fase é fundamental, porque é aí que testamos a peça nas condições reais da cerimónia, integrada no palco, na coreografia, na iluminação e em toda a dinâmica do espetáculo.”
Nos ensaios foi preciso ter todo o cuidado e coordenar da melhor forma já que não era simplesmente fazer aparecer a taça de 10 metros criada pela Air Designers em Portugal. “A insuflação fazia parte da própria coreografia da entrada. Não era simplesmente uma peça que enchia de uma só vez. Primeiro surgia e elevava-se a esfera, depois subiam os braços e, por fim, o corpo do troféu. O movimento foi pensado para criar a ilusão de que os braços estavam a agarrar a bola. Era uma entrada muito rápida, mas extremamente impactante e totalmente sincronizada com os restantes elementos da cerimónia.”
Apesar de ter os 10 metros no final, este tipo de peças consegue ser transportado facilmente. “Depois de ser esvaziado e devidamente acondicionado, cabia numa caixa-palete. Essa é uma das grandes vantagens das estruturas insufláveis: permitem criar peças monumentais que, quando desmontadas, ocupam um volume relativamente reduzido e podem ser transportadas com maior facilidade”, continua a diretora de projetos Air Designers.
Os testes e ensaios são importantes, claro, mas ver o trabalho que desenvolveram a aparecer em direito e visto por milhões em todo o mundo é toda uma outra sensação.
“Foi uma emoção muito grande. Passamos meses a trabalhar numa peça, a resolver problemas, a fazer testes e a aperfeiçoar todos os detalhes, mas nada se compara ao momento em que a vemos finalmente integrada numa cerimónia desta dimensão. Ver o troféu surgir no centro do espetáculo, perante milhares de pessoas no estádio e milhões de espectadores em todo o mundo, foi um momento de enorme orgulho para toda a equipa.”
De Vila Nova de Gaia para o mundo
Com esta participação na cerimónia do Campeonato do Mundo, a empresa espera abrir mais portas e levar o trabalho desenvolvido em Portugal a diversos eventos.
“Estar presente nos maiores eventos mundiais é, para nós, motivo de um enorme orgulho. Significa que conquistámos a confiança para integrar um grupo muito restrito de empresas e profissionais reconhecidos pela sua credibilidade, experiência e capacidade de execução. São projetos de grande dimensão, nos quais não basta ter uma boa ideia: é necessário ter conhecimento técnico, rigor, capacidade de resposta e, acima de tudo, cumprir. Fazer parte destes eventos confirma a qualidade do nosso trabalho e mostra que uma empresa portuguesa consegue competir e destacar-se nos maiores palcos do mundo.”
Apesar deste feito, esta não é a primeira vez que a Air Designers leva as suas criações a eventos deste género. Se tem na memória a cerimónia de abertura do Mundial do Qatar, em 2022, saiba que o gigante fantasminha, o La’eeb, a mascote da competição, foi criado em Vila Nova de Gaia. E há mais.
“Já produzimos, por exemplo, o troféu da Taça Árabe, o troféu da Taça de África e outras peças para grandes espetáculos e cerimónias internacionais. Este troféu para a abertura do Mundial de 2026, no México, foi mais um desses grandes desafios. É um nicho extremamente difícil de alcançar, por isso sentimos um enorme orgulho por termos conseguido entrar neste mercado e, sobretudo, por continuarmos a ser chamados para projetos desta dimensão.”
Colaborações para o Coachella, com a artista Joana Vasconcelos, e até para o Boom Festival também fazem parte do portfólio da Air Designers, empresa que foi criada em 1998 e atualmente tem como responsáveis Felipe Canedo e Márcia Perrone.
“Gostamos especialmente de projetos que nos desafiam a transformar uma ideia artística numa peça real, de grandes dimensões, com movimento e impacto visual”, continua Paloma Perrone.
Neste tipo de peças, o secretismo faz sempre parte, mas a diretora de projetos conta-nos alguns dos próximos desafios em que estão a trabalhar. “Neste momento, estamos a entrar na época dos eventos de verão, por isso estamos a desenvolver várias peças destinadas à decoração de palcos, festivais, espetáculos e outros eventos sazonais. Temos sempre novos desafios em produção. É o caso do Ushuaia Ibiza, um adereço para o palco do artista Huge.”
Percorra a galeria para conhecer alguns dos projetos da Air Designers.
Se é grande fã da competição, pode estar a ficar acordado até tarde para ver alguns dos jogos. Perceba as consequências que pode vir a ter e algumas formas de minimizar o impacto.
Adriano Guerreiro | 08:05 – 16/06/2026
Fonte: Notícias ao Minuto